O que o Texas e Paço do Lumiar têm em comum?

Lígia Teixeira
COLUNA Lígia Teixeira Historiadora por vocação e jornalista por missão. Atua há mais de 20 anos na comunicação política e institucional, com passagens por campanhas eleitorais, jornalismo impresso e digital, além de áreas estratégicas da comunicação na administração pública. Tem experiência em análise de cenário, formulação de discurso, articulação com a imprensa e com a sociedade, além da produção de conteúdo em cenários de alta complexidade. Escreve semanalmente, aos domingos. Historiadora por vocação e jornalista por missão. Atua há mais de 20 anos na comunicação política e institucional, com passagens por campanhas eleitorais, jornalismo impresso e digital, além de áreas estratégicas da comunicação na administração pública. Tem experiência em análise de cenário, formulação de discurso, articulação com a imprensa e com a sociedade, além da produção de conteúdo em cenários de alta complexidade. Escreve semanalmente, aos domingos.
ANÁLISE

No Parque Jair, em Paço do Lumiar, a paisagem de expansão urbana da Grande Ilha guarda uma questão que ultrapassa os limites de suas ruas e comunidades. Uma linha aparentemente invisível pode determinar a qual administração municipal seus moradores estarão submetidos, quem arrecadará seus impostos e qual prefeitura responderá pelos serviços públicos. Em uma região onde os municípios praticamente se encontram na continuidade das áreas urbanizadas, a definição das fronteiras deixou de ser apenas uma questão cartográfica para se transformar em uma disputa política, administrativa e financeira.

Em 2017, duas leis estaduais, de números 10.648 e 10.650, estabeleceram delimitações territoriais envolvendo municípios da Ilha de São Luís. O Governo do Maranhão sustenta a validade das normas, apresentadas como resultado de ajustes cartográficos e definições de limites. Paço do Lumiar, entretanto, contesta as alterações e argumenta que houve perda efetiva de território e população sem a observância das exigências constitucionais pertinentes.

A discussão alcança localidades como Olho de Porco, Uricutiua, Vassoural, Parque Jair e áreas próximas ao Pátio Norte e Saramanta. Não se trata de afirmar que todos esses bairros foram integralmente transferidos de um município para outro, mas de reconhecer que suas áreas e comunidades aparecem no debate sobre a delimitação territorial.

A ação judicial apresentada pelo prefeito Fred Campos questiona a constitucionalidade das leis, especialmente diante da ausência de plebiscito que, segundo a tese municipal, seria necessário para uma alteração dessa natureza. Há, naturalmente, uma discussão jurídica a ser resolvida. Corrigir tecnicamente uma divisa não é a mesma coisa que retirar uma parcela do território de um município para incorporá-la a outro. A Constituição estabelece exigências específicas para determinadas alterações territoriais, e a Justiça precisa examinar a natureza concreta do que ocorreu.

Mas existe uma dimensão política que merece atenção.

Fred Campos governa Paço do Lumiar. E, aparentemente, seu horizonte de influência não termina nas fronteiras do município que administra.

A movimentação em torno das eleições municipais de 2028 acrescenta uma nova camada à controvérsia. O que se desenha é a possibilidade de o grupo político comandado por Fred em Paço tentar conquistar também a prefeitura de São José de Ribamar, ampliando sua presença sobre dois municípios contíguos da Ilha de São Luís.

Ambicioso, Fred Campos parece ter descoberto que sua influência política não precisa terminar na divisa de Paço do Lumiar. Sua popularidade, construída a partir de uma gestão que parte da população considera muito superior às anteriores, ultrapassa o eleitorado que o escolheu e começa a produzir efeitos especialmente em Ribamar. Ali, onde a atual administração não desfruta de grande prestígio popular e o grupo do atual prefeito, Dr. Julinho, vive às turras.

A comparação entre as duas cidades é recorrente. Há moradores de São José de Ribamar que olham para o município vizinho com admiração e chegam a manifestar o desejo de pertencer a ele. Fred, nesse contexto, tornou-se uma espécie de prefeito que parte dos ribamarenses gostaria de ter. Sua popularidade parece ter atravessado a fronteira municipal antes mesmo de qualquer disputa eleitoral.

É nesse cenário que a discussão sobre os limites territoriais ganha uma utilidade política que vai muito além da cartografia. Ao colocar em debate o pertencimento dessas comunidades, Fred encontra uma oportunidade de transformar a comparação entre as duas administrações em uma demonstração pública de força. Um eventual plebiscito, embora formalmente destinado a consultar a população sobre uma questão territorial, acabaria funcionando também como um termômetro comparativo da popularidade dos dois projetos municipais.

Se a preferência dos moradores se inclinasse por Paço do Lumiar, Fred poderia apresentar o resultado como uma espécie de reconhecimento popular de sua gestão, ampliando sua influência justamente no território que pretende disputar politicamente nas eleições municipais de 2028. Há, portanto, uma dimensão oportunista nessa estratégia: utilizar uma controvérsia legítima sobre fronteiras e identidade territorial para fortalecer uma ambição que ultrapassa os limites da prefeitura que atualmente ocupa.

As alternativas familiares são particularmente interessantes. De um lado, o irmão, Alderico Campos. De outro, a esposa, Maedja Campos, que conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa em 2026. São duas possibilidades que revelam estratégias diferentes de expansão política.

A candidatura de Alderico representaria uma opção de continuidade familiar. Fred poderia preservar Maedja no Legislativo estadual, mantendo uma presença institucional na Assembleia, enquanto o irmão disputaria o comando do Executivo ribamarense. Seria uma espécie de divisão de funções dentro do mesmo grupo: um braço no governo municipal de Paço, outro na disputa pela prefeitura vizinha e um terceiro na representação parlamentar estadual.

Maedja, por sua vez, representa uma alternativa de maior exposição política. Sua eleição para a Assembleia confere ao grupo uma dimensão institucional que ultrapassa o território de Paço do Lumiar. Alderico pode representar a continuidade do projeto familiar sem exigir que Maedja abandone sua trajetória parlamentar. Maedja, por outro lado, oferece uma candidatura com visibilidade estadual e um mandato conquistado nas urnas, mas tornaria ainda mais explícita a concentração do projeto político em torno de Fred.

A milhares de quilômetros dali, no Fifth Ward, um antigo bairro de Houston, no Texas, a paisagem conserva as marcas de uma história que começou muito antes das atuais disputas eleitorais americanas. Casas modestas, igrejas, pequenos estabelecimentos comerciais e uma comunidade profundamente ligada à história negra da cidade compõem uma geografia que não se explica apenas por ruas e quarteirões. Ali, o território é também uma forma de memória.

No sistema eleitoral americano, comunidades como essa são distribuídas entre distritos congressionais, circunscrições que elegem os representantes para a Câmara dos Estados Unidos. Suas fronteiras não são percebidas por quem atravessa as ruas, mas determinam quais eleitores participarão da escolha de cada deputado.

É uma das dimensões menos óbvias do poder: nem sempre é necessário conquistar um território pela força ou convencer seus habitantes a mudar de opinião. Em determinadas circunstâncias, basta alterar a maneira como eles são distribuídos no mapa.

Nos Estados Unidos, essa técnica tem nome próprio: gerrymandering. Surgida no século XIX, a expressão designa a manipulação das fronteiras dos distritos eleitorais para favorecer determinado partido. O mecanismo é engenhoso. Concentram-se adversários em alguns distritos, dispersam-se seus eleitores em outros e, com isso, pode-se transformar uma votação relativamente equilibrada em uma vantagem parlamentar expressiva.

O eleitor continua votando. A democracia mantém suas instituições. A diferença é que o resultado passa a depender também de quem teve a oportunidade de desenhar o território eleitoral.

Foi precisamente essa lógica que colocou o Texas no centro de uma das mais importantes disputas políticas que antecederam as eleições de meio de mandato americanas, ocorridas na semana passada. Os republicanos, que controlam o governo estadual, buscaram redesenhar os distritos congressionais para ampliar suas possibilidades de conquistar cadeiras na Câmara. Os democratas reagiram, procurando neutralizar a vantagem em estados onde também possuíam condições de modificar os mapas.

O resultado das eleições de 3 de novembro precisa ser compreendido à luz dessa engenharia. O redesenho dos distritos teve importância estrutural porque estabeleceu o terreno sobre o qual os candidatos disputariam as cadeiras. Um partido pode entrar na eleição com mais distritos considerados seguros e, portanto, com uma vantagem inicial na conversão de votos em representantes.

O mapa não vota, mas pode determinar o peso relativo de cada voto.

No fundo, o Partido Republicano no Texas e Fred Campos em Paço do Lumiar operam em terrenos institucionais diferentes, mas compreendem uma mesma dimensão estratégica da política: o território também é uma fonte de poder. Os republicanos procuram reorganizar os distritos eleitorais para converter a distribuição geográfica dos eleitores em mais cadeiras no Congresso. Fred, por sua vez, explora uma controvérsia sobre limites municipais que pode ampliar sua influência sobre comunidades vizinhas e fortalecer sua presença política em São José de Ribamar. Um atua sobre as fronteiras eleitorais; o outro, sobre as fronteiras administrativas e o sentimento de pertencimento territorial.

Em ambos os casos, a geografia deixa de ser um cenário passivo e passa a integrar o próprio jogo político. A diferença está no instrumento: enquanto os republicanos procuram redesenhar o campo eleitoral, Fred pode transformar a discussão sobre a configuração municipal em uma plataforma de expansão de sua influência regional. O objetivo político, em última análise, aproxima as duas estratégias: acumular poder ampliando o alcance territorial de sua influência.

No fundo, o território é uma das formas mais discretas de acumulação política. Não aparece necessariamente nos discursos, não costuma ocupar o centro dos debates eleitorais e raramente desperta a atenção do eleitor comum. Mas pode definir a quantidade de pessoas sob determinada administração, o volume de recursos disponíveis e a extensão da influência de uma liderança.

O político tradicional procura conquistar o eleitor. O político mais engenhoso compreende também a importância de conquistar os lugares onde esse eleitor vive, trabalha e estabelece suas relações.

E, quando a ambição ultrapassa as fronteiras de uma prefeitura e alcança o município vizinho, a disputa deixa de ser apenas por uma eleição.

Passa a ser pelo desenho de um território de poder.

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