A Polícia Federal pediu duas vezes o afastamento do governador do Maranhão, Carlos Brandão (MDB), no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de desvio de recursos públicos envolvendo empresas ligadas à família do governador. A informação foi revelada nesta quarta-feira (23) pela Folha de S.Paulo, que teve acesso a partes do inquérito mantido sob sigilo.
Além do afastamento, a PF pediu mandados de busca e apreensão contra Brandão, os irmãos Marcus Brandão e José Henrique Brandão e uma filha do governador, Lethicia Brandão. A investigação foi aberta em 2024 a partir de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre movimentações consideradas atípicas, principalmente em Colinas, reduto eleitoral dos Brandão.
A apuração foi solicitada à Polícia Federal pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e autorizada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde tramitava inicialmente por envolver o governador. Carlos Brandão e seu sobrinho Daniel Brandão, afastado da presidência do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MA), estão entre os investigados.
Os investigadores apuram um suposto esquema no qual empresas ligadas à família Brandão teriam recebido recursos desviados de contratos com o governo do Maranhão e a Prefeitura de Colinas. Entre 2015 e 2024, as empresas investigadas firmaram 237 contratos com os dois entes públicos, que somaram cerca de R$ 100 milhões. A Controladoria-Geral da União (CGU) apontou o que classificou como “fortes indícios” de licitações montadas para direcionar contratos às empresas.
Entre as empresas mencionadas estão Coagri, Gás do Sertão, Disvali, Vigas Engenharia e Empreendimentos do Maranhão (EMA). Segundo a PF, Vigas e EMA estariam formalmente registradas em nome de terceiros, mas pertenceriam de fato ao grupo Brandão e teriam funcionado como intermediárias de recursos provenientes de contratos públicos para outras empresas do grupo, além de pagar despesas pessoais de integrantes da família. As suspeitas ainda estão sob investigação.
Um dos principais focos da apuração é a Vigas Engenharia. Conforme a PF, a empresa recebeu R$ 77,5 milhões do governo estadual e da Prefeitura de Colinas entre 2017 e julho de 2023. Desse montante, R$ 36,7 milhões foram repassados a outras empresas do grupo.
PF pediu buscas em secretarias do governo
Os pedidos da Polícia Federal foram apresentados em diferentes momentos da investigação. Inicialmente, a corporação solicitou mandados de busca e apreensão contra Marcus Brandão e José Henrique Brandão. O pedido não chegou a ser decidido pelo STJ.
Em maio de 2025, a PF ampliou a representação e pediu buscas contra Carlos Brandão e Lethicia Brandão, além do sequestro de bens dos dois e de holdings que, segundo os investigadores, teriam sido utilizadas para dificultar a identificação da expansão patrimonial de integrantes do grupo. Essa representação também ficou sem decisão.
Dois meses depois, em julho, a Polícia Federal pediu o afastamento de Brandão do cargo até o término da investigação. Na mesma representação, a PF solicitou buscas nas secretarias estaduais de Infraestrutura e Administração.
A PGR se manifestou favoravelmente às buscas e informou que aguardaria o resultado das diligências antes de se posicionar sobre o afastamento do governador. As buscas não chegaram a ser autorizadas pelo STJ, e o ministro Humberto Martins não se manifestou sobre o afastamento antes da transferência dos inquéritos para o Supremo Tribunal Federal (STF). Os casos foram enviados ao Supremo após surgir, nas investigações, a suspeita de que o senador Weverton Rocha (PDT) atuava junto a Martins para interferir nas apurações.
Em 2026, já com as investigações tramitando no Supremo, a Polícia Federal reforçou os pedidos. O ministro Flávio Dino, relator dos casos, atendeu parcialmente às solicitações da PF, mas não se manifestou sobre o afastamento de Brandão nem sobre as buscas contra integrantes do grupo. A PGR apresentou posteriormente novo parecer defendendo que os inquéritos retornem ao STJ.
Brandão questiona a tramitação dos inquéritos no Supremo e pede que as investigações retornem ao STJ. A defesa afirmou que tenta há mais de um ano ter acesso aos elementos das apurações e informou que não se manifestaria sobre o conteúdo dos relatórios porque os documentos permanecem sob sigilo. Também rejeitou qualquer tentativa de atribuir crimes ao governador sem a individualização de sua conduta e afirmou que Brandão permanece à disposição das instituições responsáveis pela investigação. Marcus Brandão não respondeu aos questionamentos.
