O inquérito da Polícia Federal sobre o Caso Tech Office contradiz a versão apresentada pelo vereador de São Luís Beto Castro (Avante) sobre a reunião que terminou no assassinato do empresário João Bosco, em agosto de 2022.
Beto é uma das principais testemunhas oculares do crime. Imagens do sistema de monitoramento do Edifício Tech Office, onde o crime aconteceu, mostram o vereador no local no momento do homicídio. As imagens também mostram que o vereador estava reunido com os envolvidos pouco antes dos disparos.
À época, Beto Castro disse à Polícia Civil que o encontro com Gilbson Cutrim Júnior, condenado pelo assassinato de João Bosco, havia acontecido por acaso. Segundo o vereador, o crime foi resultado de um desentendimento pessoal provocado por uma dívida entre Gilbson e a vítima.
A Polícia Federal, no entanto, trabalha com uma hipótese bem diferente.
Reunião para discutir propina
A PF aponta que a reunião no Tech Office também teve a participação de Daniel Brandão, sobrinho do governador Carlos Brandão (MDB) e atual presidente afastado do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MA), e teria sido marcada para discutir a divisão de propina de um suposto esquema de corrupção na cúpula do governo do estado.
Segundo a investigação, havia tensão entre integrantes do grupo sobre a divisão dos valores. A PF afirma que Daniel Brandão convocou Gilbson para a reunião e que a discussão girou em torno do dinheiro decorrente de pagamentos intermediados pelo grupo.
Em depoimento prestado à Polícia Federal em fevereiro deste ano, Gilbson detalhou o funcionamento do suposto esquema e afirmou que chegou a entregar dinheiro dentro do Palácio dos Leões ao governador Carlos Brandão.
O governador nega qualquer envolvimento em irregularidades, diz nunca ter mantido relação com Gilbson e classifica as acusações como falsas. Ele também se diz vítima de perseguição do ex-aliado e hoje ministro do STF Flávio Dino.
Beto considera caso “encerrado”
O Observador Maranhense procurou Beto Castro na terça-feira (26) para questioná-lo sobre o conflito entre a versão apresentada por ele à Polícia Civil e os elementos posteriormente levantados pela Polícia Federal.
O vereador não quis comentar as divergências e afirmou considerar o Caso Tech Office um assunto encerrado.
A reportagem também questionou Beto sobre sua relação com João Bosco e se ele tinha conhecimento do histórico policial e criminal do empresário.
João Bosco chegou a responder a processo por homicídio qualificado no Piauí. Em 2020, também foi acusado de ameaça e coação pelo então prefeito de São Luís, Edivaldo Holanda Jr., durante uma cobrança relacionada a uma dívida da prefeitura.
Segundo o relato feito por Edivaldo à época, João Bosco realizou uma manifestação em frente ao prédio onde o então prefeito morava, cobrando o pagamento, e afirmou que voltaria ao local até que a dívida fosse quitada. Edivaldo alegou ter sido ameaçado e coagido e disse que teve seu direito de ir e vir comprometido.
Beto Castro não respondeu às perguntas sobre sua relação com João Bosco.
Como a investigação da Polícia Federal segue sob sigilo e apenas partes dela foram tornadas públicas pelo ministro Flávio Dino, ainda não é possível saber qual é exatamente a situação de Beto Castro dentro do inquérito.
Mas a atuação dele na reunião no Tech Office, e as acusações feitas por Gilbson Cutrim, também são objeto da investigação da PF.
