A decisão do ministro Flávio Dino pelo afastamento do conselheiro Daniel Brandão do Tribunal de Contas do Estado traz trechos de um depoimento que o assassino do Tech Office, o Gilbson Cutrim Júnior, deu à Polícia Federal no dia 19 de fevereiro deste ano.
No depoimento, Gilbson afirma que matou o empresário João Bosco porque acreditava que seria morto naquele encontro. E não por causa de uma dívida, como o vereador Beto Castro, que presenciou o homicídio, afirmou em depoimento três dias após o crime.
Gilbson disse que acreditava que seria morto para não causar problemas à campanha de reeleição do governador Carlos Brandão. Segundo seu relato, havia medo de que ele revelasse o que sabia sobre um suposto esquema de corrupção na cúpula do governo do estado e prejudicasse a campanha do governador.
No depoimento, Gilbson detalhou o funcionamento do suposto esquema e disse que chegou a entregar valores dentro do Palácio dos Leões para o governador Carlos Brandão. Segundo a Polícia Federal, ele atuava como operador do esquema: intermediava empresas, recebia valores e fazia a distribuição da propina entre integrantes do grupo.
Segundo Gilbson, foi justamente para discutir a divisão desse dinheiro que Daniel Brandão convocou a reunião no Tech Office. No local estavam também João Bosco e Beto Castro. Gilbson afirma que percebeu que João Bosco estava armado e que, assim que se sentou, Daniel disse: “É para fazer do jeito que o tio disse”.
A partir daí, segundo Gilbson, João Bosco passou a insistir para que ele entrasse em um carro. Gilbson afirma que se recusou, decidiu ir embora e começou a caminhar em direção ao próprio veículo. João Bosco foi atrás.
Foi nesse momento que, segundo Gilbson, Beto Castro o alertou: “Entra no Tech Office, eles vão te matar”.
Gilbson afirma que, em seguida, sacou a pistola que carregava na bolsa e atirou em João Bosco.
Depois do assassinato, segundo ele, Daniel Brandão ligou desesperado, mandando que apagasse tudo. Gilbson afirma que os dois tiveram o seguinte diálogo:
“Rapaz, porra, tu me levou, tu me chamou pros caras me matar, Daniel.”
“Não, não, cara. Pelo amor de Deus, some, some.”
Gilbson disse ainda que Daniel voltou a ligar e que Beto Castro também telefonou várias vezes depois dos disparos. À Polícia Federal, afirmou que os contatos ficaram registrados e poderiam ser comprovados.
Depois do assassinato, segundo a investigação, integrantes da família Brandão teriam atuado para comprar o silêncio de Gilbson, com pagamentos em dinheiro e promessas de outras vantagens financeiras. A decisão de Flávio Dino cita repasses, ofertas de imóveis e outros benefícios que teriam como objetivo impedir que ele revelasse o que sabia.
Daniel e Carlos Brandão negam qualquer envolvimento com o assassinato e com o esquema investigado. O governador afirma que é vítima de perseguição política do ex-aliado e hoje ministro do STF Flávio Dino.
Leia a íntegra da decisão que afastou Daniel Brandão do TCE.
