O ministro Flávio Dino tornou públicas na última sexta-feira (14) decisões do inquérito da Polícia Federal que investiga as circunstâncias do assassinato do empresário João Bosco Sobrinho Pereira de Oliveira, ocorrido em São Luís, em 2022, crime que ficou conhecido como “Caso Tech Office” — referência ao edifício comercial onde o homicídio aconteceu.
Para a PF, o crime ocorreu no contexto de uma disputa por propina e acabou revelando um megaesquema de corrupção que alcançaria a cúpula do governo do estado. Segundo a investigação, empresas eram selecionadas para receber pagamentos com recursos públicos, inclusive de débitos já prescritos, e eram priorizados valores acima de R$ 5 milhões, justamente porque permitiriam a inserção de quantias ilícitas maiores no fluxo dos pagamentos.
João Bosco estava na reunião em que, segundo a PF, se discutia justamente a divisão desse dinheiro. O encontro terminou com sua morte, após uma discussão em que Gilbson César Soares Cutrim Júnior, autor dos disparos que mataram João Bosco, era cobrado sob a suspeita de receber valores das empresas que intermediava e não repassar a parte dos demais integrantes do grupo.
Segundo a PF, Gilbson participou da reunião a convite de Daniel Brandão, sobrinho do governador Carlos Brandão e atual presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MA), que à época dos fatos era secretário-chefe da Assessoria Especial do governador. A investigação afirma que Daniel telefonou diretamente para Gilbson convocando-o para o encontro e permaneceu no local durante o início da discussão, deixando o ambiente momentos antes dos disparos.
Daniel Brandão nega envolvimento no caso e diz que colabora com as investigações. Pelo que consta, ainda não explicou o que fazia numa reunião que, segundo a Polícia Federal, discutia divisão de valores de um esquema de propina e terminou em assassinato.
Pela linha de investigação da PF, Daniel Brandão representava naquela reunião os interesses do núcleo político do tio governador, apontado pelos agentes como “provável líder” da organização criminosa. A corporação afirma que Gilbson atuava na circulação de documentos e valores em espécie entre integrantes do núcleo político após interlocução direta com Daniel e com Carlos Brandão.
Em vídeo publicado nas redes sociais neste sábado (15), Carlos Brandão negou ser chefe de uma organização criminosa e disse ter recebido as suspeitas “com indignação”. Também voltou a falar em perseguição política após o rompimento com Flávio Dino, de quem foi aliado e vice-governador.
Por óbvio, é certo que Brandão tem todo o direito de se defender das graves acusações, questionar a condução do inquérito e apontar o que considera irregularidades na investigação. O que não pode é usar a tese da perseguição como resposta para tudo. Há fatos objetivos, descritos pela Polícia Federal, que exigem explicações.
No relatório reproduzido por Flávio Dino, os investigadores afirmam que Gilbson atuava na circulação de documentos e valores em espécie dentro do núcleo político após interlocução direta com Daniel Brandão e com o próprio Carlos Brandão. É nesse contexto que o governador aparece classificado como “provável líder da organização criminosa ora investigada”.
Há mais. Daniel Brandão, sobrinho do governador e então secretário-chefe de sua Assessoria Especial, convocou Gilbson para a reunião em que, segundo a PF, se discutiu a divisão de dinheiro oriundo do esquema. Daniel participou do início do encontro, ao lado de João Bosco e de Beto Castro, vereador de São Luís que testemunhou o assassinato e, até hoje, não apresentou uma explicação convincente sobre o que fazia ali.
A presença de Daniel naquela reunião não prova, por si só, sua responsabilidade criminal nem a do governador. Mas, diante do contexto descrito pela Polícia Federal, é um fato de enorme gravidade que exige uma explicação convincente — e até agora ela não veio.
A investigação também descreve movimentos posteriores para mudar depoimentos, constranger pessoas ligadas ao caso, fazer informações sigilosas circularem fora da equipe responsável pela apuração e dificultar o avanço das investigações. A PF chegou a apontar “indícios de infiltração” dentro da própria corporação e a investigar a atuação de agentes públicos na tentativa de proteger integrantes do grupo.
É diante desse conjunto que Brandão precisa se explicar. Dizer que rompeu com Flávio Dino e que passou a ser perseguido depois disso pode ser parte de sua defesa política. Não é, contudo, resposta para os fatos narrados pela Polícia Federal.
Se o governador considera falsas as conclusões dos investigadores, precisa enfrentá-las no mérito. Isso significa esclarecer sua relação com Gilbson e o papel de Daniel Brandão naquela reunião; explicar por que a Polícia Civil, da qual é chefe, ignorou a presença do sobrinho no encontro que terminou em assassinato; responder ao relato do pai de Gilbson, que afirmou ter recebido R$ 160 mil em dinheiro vivo e apontou Marcus Brandão, irmão do governador, como a origem dos recursos; e explicar por que Raimundo Cutrim, então secretário de Assuntos Legislativos de seu governo, pressionou a família do homicida a mudar os depoimentos prestados à PF e, na mesma conversa, tentou construir uma versão que afastasse Daniel Brandão do Caso Tech Office.
Até aqui, Brandão respondeu muito mais à origem que atribui à investigação do que ao conteúdo dela. Falou em rompimento político, perseguição, questionou a competência do STF e reclamou da falta de acesso integral aos autos — argumentos legítimos, que fazem parte de seu direito de defesa. Mas ainda não respondeu às questões centrais levantadas pela Polícia Federal.
A acusação de perseguição pode até ser investigada e debatida. Mas ela não elimina o essencial: Carlos Brandão e sua família têm muito a explicar aos maranhenses.
