Braide se cerca de bolsonaristas, mas prefere não ser visto como um

EDITORIAL
Por O Observador Maranhense | 10/04/2026

Quando ainda era prefeito de São Luís, mas já operando como pré-candidato a governador do estado, Eduardo Braide saiu-se com uma platitude ao ser questionado sobre sua posição política. “Quando me perguntam: ‘o senhor é esquerda ou direita?’, eu digo: eu vou para frente”, bravateou o então prefeito da capital, no dia 5 de março, durante ato de lançamento do que ele chamou de “o maior pacote de obras e serviços da capital maranhense”.

Ciente de que tanto o eleitor de esquerda quanto o de direita aguardavam o anúncio da sua candidatura, o prefeito da capital buscava desvencilhar-se de questões ideológicas. “Tenho capacidade de dialogar com todas as correntes. No Brasil, toda vez que você vê uma pessoa discutindo ideologia, é porque [ela] não tem obra para mostrar. Eu não tenho tempo, nem irei perder tempo, discutindo se é lado A ou lado B. A gente vai para frente”, completou, sob aplausos da plateia.

Apesar do discurso anti-ideológico da véspera, os primeiros movimentos da pré-candidatura Braide demonstram que o ex-prefeito de São Luís também tem – assim como qualquer outro mortal – as suas inclinações.

Com o jogo ganho na capital, Braide decidiu iniciar a pré-campanha em Imperatriz, segundo maior colégio eleitoral do estado e uma das únicas três cidades do Maranhão em que Bolsonaro saiu com mais votos do que Lula nas eleições de 2022 (as outras duas cidades são Açailândia e São Pedro dos Crentes). Por lá, tem circulado com gente que não só aproveita qualquer oportunidade de “discutir ideologia”, como também pauta sua atuação política com base no enfrentamento ideológico.

Seu principal cicerone pela Região Tocantina tem sido o vereador imperatrizense, e bolsonarista de quatro costados, Ricardo Seidel. Fã de Olavo de Carvalho e do presidente da Argentina, Javier Milei, Seidel participou da ocupação em frente ao 50º Batalhão de Infantaria de Selva, em Imperatriz, que pedia intervenção militar no Brasil após a derrota de Jair Bolsonaro nas eleições de 2022. Ele também é entusiasta das caminhadas do deputado Nikolas Ferreira e frequentador contumaz de qualquer manifestação que peça a derrubada de ministros do Supremo Tribunal Federal.  

Nos bastidores, Ricardo Seidel é creditado como fiador da indicação da empresária Elaine Carneiro para compor a chapa de Braide como pré-candidata a vice-governadora. De perfil mais discreto e sem vínculo prévio com a política tradicional, Elaine é ligada ao agro e – naturalmente – também nutre especial admiração por Bolsonaro e pelo deputado Nikolas Ferreira.

Outro bolsonarista da região que tem recebido confetes do ex-prefeito de São Luís, e chegou a ser convidado por ele para filiar-se ao PSD e concorrer a deputado federal, é o empresário Nilson Takashi. Em 2018, Takashi foi o marqueteiro responsável pela campanha de Maura Jorge – que se vendia como “a candidata de Bolsonaro no Maranhão” – ao governo do estado. Foi dele a ideia de vestir a então candidata com uma camisa em que se lia “M17O” para a participação no debate da TV Mirante.

Embora tenha se cercado de conhecidos bolsonaristas para percorrer a região sul do estado, Braide prefere não ser visto como um e tenta manter – pelo menos no discurso – a pose de tecnocrata.

Em entrevistas que concedeu a rádios locais, ele tem repetido que a empresária Elaine Carneiro, que nunca concorreu a qualquer cargo eletivo e cuja experiência reside na administração de empresas da família, representa uma escolha técnica. Só não explicou em que a administração da empresa Pneus Brasil, herdada por Elaine em 2018, se assemelha ao dia a dia de um possível ocupante do Palácio dos Leões.

É evidente que a aproximação com nomes ligados ao bolsonarismo não faz de Braide automaticamente um bolsonarista. Sua atuação na pandemia — quando liderou o combate à Covid-19 em São Luís, enquanto Bolsonaro, ainda no Palácio do Planalto, negava a crise e falava em “gripezinha” — corrobora esse entendimento. Mas existe uma clara intenção por parte do ex-prefeito, que, afinal, é um político de direita, de atrair uma parte específica do eleitorado maranhense neste início de pré-campanha.

Para voltar à Avenida Pedro II a partir de janeiro de 2027, no entanto, Braide terá de convencer também o eleitor não-bolsonarista de que essa aproximação com nomes ligados ao ex-presidente – preso por tentativa de golpe de Estado – não significa que ele possa vir a questionar a integridade de urnas eletrônicas ou a eficácia das vacinas.

É o que este jornal digital espera.

Avatar photo
Sobre o autor

O Observador Maranhense

O Observador Maranhense é o primeiro jornal digital dedicado exclusivamente à cobertura política do Maranhão, com sede em São Luís (MA). Desenvolve jornalismo profissional, publicando reportagens, colunas, vídeos, newsletters e infográficos.

Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários