PF diz que Raimundo Cutrim pressionou família de assassino do Caso Tech Office a mudar versão

COLUNA | DANIEL MORAES — 15/08/2026

A Polícia Federal aponta que o ex-deputado estadual Raimundo Cutrim tentou convencer familiares de Gilbson César Soares Cutrim Júnior, condenado pelo assassinato de João Bosco Sobrinho Pereira de Oliveira no Caso Tech Office, a mudar os depoimentos prestados na investigação.

À época dos fatos investigados, Cutrim era secretário de Estado de Assuntos Legislativos do Maranhão. Ele aparece em uma gravação entregue aos investigadores orientando o pai de Gilbson sobre a versão que o condenado e sua esposa, Lorena Santos, deveriam apresentar à Polícia Federal.

Na avaliação da PF, a intenção seria blindar o grupo do governador Carlos Brandão, afastando seus integrantes das suspeitas e construindo uma nova versão para fatos que já estavam sob investigação.

O episódio consta de decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que tornou públicas informações das investigações relacionadas ao Caso Tech Office. A conversa ocorreu em 14 de junho de 2026, durante um encontro entre Cutrim e o pai de Gilbson na residência do então secretário.

Cutrim sugeriu que Lorena alegasse que estava “passando fome”

Na gravação, Cutrim questiona como seria feita a mudança da versão inicialmente apresentada e pergunta se Gilbson prestaria um novo depoimento ou escreveria uma carta.

Em seguida, orienta como Lorena deveria justificar uma eventual mudança no que havia declarado à polícia. A versão sugerida era de que ela enfrentava dificuldades financeiras após a prisão do marido e teria feito as declarações anteriores por estar em “estado de necessidade”.

“Ela vai dizer que estava numa situação financeira, passando fome”, afirma Cutrim em trecho do áudio reproduzido na decisão.

O pai de Gilbson afirmou posteriormente à PF que Cutrim teria construído ainda uma versão segundo a qual Lorena recebeu R$ 300 mil e, em outro momento, R$ 500 mil de agentes políticos. Ele negou que os pagamentos tenham ocorrido e classificou a narrativa como uma “fantasia” criada para justificar a alteração dos depoimentos.

Cutrim queria saber o que o homicida havia contado à PF

A investigação também destaca o interesse de Cutrim no conteúdo da colaboração de Gilbson com a Polícia Federal.

Na conversa gravada, Cutrim fala expressamente em uma “delação” e afirma ter lido parte do documento.

“E lá ele fez uma delação, não sei o que ele falou. Lá tem uma delação mesmo. Inclusive eu li um pedaço dela. Que ele fala de muita coisa. Não sei se ele fala. Tem que saber o que ele fala”, afirmou.

Ao ser questionado pelo pai de Gilbson sobre a situação do acordo, Cutrim respondeu: “Eu não tô te dizendo que ele assinou? Tem é que ver o que ele diz nessa delação”.

Na avaliação dos investigadores, o interesse em descobrir previamente o que Gilbson havia contado seria relevante porque permitiria adequar a nova versão às informações que já estavam em poder da Polícia Federal.

Daniel Brandão aparece na conversa

A gravação também traz referências a Daniel Brandão, presidente do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA) e sobrinho do governador Carlos Brandão.

Em um dos trechos, Cutrim afirma não ver como Daniel poderia estar envolvido no crime.

“Eu não vejo pessoalmente como Daniel possa estar envolvido nesse crime, porque ele não tá. Não tem como”, declarou.

A notícia-crime reproduzida na decisão afirma que Cutrim buscava afastar Daniel da cena do crime e orientava que Lorena atribuísse sua versão anterior ao recebimento de dinheiro de integrantes da oposição.

Para a PF, os elementos reforçam a suspeita de uma tentativa de influenciar testemunhas, reorganizar versões anteriormente prestadas e dificultar o avanço das investigações.

Pai de Gilbson cita Carlos e Marcus Brandão

Em depoimento à Polícia Federal, o pai de Gilbson afirmou que os contatos com Cutrim haviam começado antes da conversa gravada em junho.

Segundo ele, os dois se reuniram reservadamente na residência de Cutrim, no bairro Vinhais, em São Luís, cerca de um mês depois de seu depoimento à PF, prestado em fevereiro.

O pai de Gilbson declarou que esses encontros teriam ocorrido a pedido de integrantes da família Brandão, citando Marcus Brandão e o governador Carlos Brandão, com o objetivo de fazer Gilbson Júnior e Lorena alterarem as versões apresentadas aos investigadores.

Ele afirmou ainda ter recebido R$ 160 mil em dinheiro vivo das mãos de Cutrim e apontou Marcus Brandão, irmão do governador, como a origem dos recursos.

Segundo o depoimento, o montante foi dividido em três parcelas — R$ 80 mil, R$ 50 mil e R$ 30 mil — entregues em um imóvel vinculado a Cutrim no Vinhais.

A investigação registra ainda outros repasses atribuídos a Cutrim: R$ 10 mil e R$ 12 mil destinados ao pai de Gilbson e outros R$ 4 mil para custear passagens aéreas de Lorena e das filhas para São Luís.

Dino decretou prisão de Cutrim

Diante dos novos elementos, a Polícia Federal pediu a prisão preventiva de Cutrim. A corporação sustentou que sua liberdade representava risco à investigação diante da suspeita de atuação para influenciar testemunhas, reorganizar versões já apresentadas e embaraçar a apuração.

Flávio Dino acolheu o pedido e decretou a prisão preventiva. Como Cutrim tem mais de 70 anos, a medida foi convertida em prisão domiciliar, com tornozeleira eletrônica.

O ministro também determinou seu afastamento do cargo de secretário de Estado e impôs restrições de comunicação, incluindo proibição de entrevistas, declarações públicas, acesso a redes sociais e ligações telefônicas.

Outro lado

A defesa de Raimundo Cutrim nega irregularidades e afirma não ter tido acesso integral aos autos. Os advogados também questionam a atuação de Flávio Dino no caso e sustentam que o ministro deveria ser afastado das investigações por suposto impedimento ou suspeição.

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Sobre o autor

Daniel Moraes

Jornalista, fundador e editor-chefe do jornal digital O Observador Maranhense.

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