Dino tira sigilo de decisões que apontam homicídio, corrupção e obstrução à Justiça no Maranhão

COLUNA | DANIEL MORAES — 14/08/2026

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou o sigilo de decisões que revelam a dimensão de um conjunto de investigações da Polícia Federal no Maranhão. Os fatos apurados podem envolver crimes de homicídio, corrupção, peculato, obstrução à Justiça, coação no curso do processo e organização criminosa, entre outros.

Uma das decisões tornadas públicas reúne as PETs 15.437, 15.900 e 16.356 e foi assinada por Dino em 14 de julho. Em 60 páginas, o ministro detalha investigações que, para a PF, estão conectadas. O ponto de partida é o Caso Tech Office, homicídio de João Bosco Sobrinho Pereira de Oliveira, ocorrido em São Luís em 2022. A partir do crime, os investigadores passaram a apurar um suposto esquema de corrupção que alcançaria a cúpula do poder estadual, além de uma sequência de possíveis tentativas de atrapalhar as investigações.

Caso Tech Office e suspeitas de corrupção

Segundo a Polícia Federal, o homicídio de João Bosco está ligado a um suposto esquema de corrupção dentro do governo do Maranhão, envolvendo pagamentos feitos pelo Estado.

A PF afirma que Gilbson César Soares Cutrim Júnior, condenado pelo assassinato, atuava como intermediário na circulação de documentos e dinheiro entre empresários e integrantes do núcleo político do governo Brandão. Segundo a investigação, ele mantinha interlocução direta com Daniel Brandão, atual presidente do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA), e com o governador Carlos Brandão (MDB).

A Polícia Federal aponta o governador Carlos Brandão como “provável líder da organização criminosa ora investigada”, segundo trecho reproduzido por Dino na decisão.

Os investigadores descrevem também como o suposto esquema funcionaria. Empresas seriam selecionadas para receber pagamentos do Estado, inclusive referentes a débitos já prescritos. A preferência era por liberações de mais de R$ 5 milhões, porque valores maiores permitiriam obter e dividir propinas também maiores.

Um dos casos citados envolve a empresa S.H. Vigilância e Segurança Eireli. Segundo a PF, a liberação de dinheiro para a empresa provocou divergências dentro do grupo sobre a divisão da propina.

É nesse ponto que a investigação liga o suposto esquema de corrupção ao Caso Tech Office.

De acordo com a PF, Daniel Brandão telefonou para Gilbson e o convocou para uma reunião em 19 de agosto de 2022. No local estavam também João Bosco e Werberth Macedo Castro, conhecido como Beto Castro, vereador de São Luís.

Segundo a investigação, a reunião foi convocada para discutir a divisão de valores ligados a pagamentos feitos pelo governo do Maranhão. Durante o encontro, Gilbson teria sido cobrado porque havia suspeitas de que estivesse recebendo dinheiro das empresas e não repassando a parte dos demais integrantes do grupo. A discussão se acirrou, Daniel Brandão deixou o local e, pouco depois, Gilbson atirou em João Bosco. Para os investigadores, o homicídio ocorreu nesse contexto de disputa pela divisão da propina.

PF aponta falhas na investigação da Polícia Civil

A Polícia Federal também aponta problemas na investigação original do homicídio, conduzida pela Polícia Civil do Maranhão.

Imagens das câmeras de segurança do local do crime foram requisitadas pela Justiça, mas nunca chegaram ao processo. A 1ª Vara do Júri determinou duas vezes que as gravações fossem anexadas. A Delegacia de Homicídios informou que o material estava no Instituto de Criminalística, enquanto o instituto disse já tê-lo devolvido à delegacia. Na prática, as imagens ficaram fora dos autos.

Outro ponto destacado pela PF é que Daniel Brandão não apareceu inicialmente na investigação como participante da reunião. Seu nome só passou a constar formalmente do caso depois que a filha de João Bosco o citou. Mesmo assim, segundo a decisão, Daniel não foi ouvido pela Polícia Civil.

Para a Polícia Federal, a investigação estadual conseguiu esclarecer quem efetuou os disparos, mas não aprofundou a possível relação do homicídio com corrupção e dinheiro público. Dino considerou necessário avançar nessa linha e investigar se fatores externos influenciaram a condução inicial do caso.

PF apura atuação de Weverton Rocha no STJ

Outra frente investiga uma possível tentativa de interferência no andamento das apurações e envolve o senador Weverton Rocha (PDT-MA).

A PF apura se o parlamentar atuou junto ao gabinete do ministro Humberto Martins, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), para influenciar a Sindicância 861/DF, relacionada ao caso.

A investigação avançou após ser autorizado o compartilhamento dos dados extraídos do celular de Weverton, apreendido na Operação Sem Desconto. O material havia sido produzido em outra investigação e foi compartilhado com autorização judicial.

A análise revelou contatos frequentes entre Weverton e Humberto Martins entre 25 de janeiro de 2023 e 4 de outubro de 2025. Foram encontradas mensagens, áudios, ligações e conversas sobre encontros e processos sob responsabilidade do ministro.

Segundo a PF, alguns pedidos foram feitos diretamente pelo senador ao magistrado, com menção a pessoas que tinham processos sob relatoria de Martins. Para os investigadores, os contatos demonstram uma proximidade que ia além de uma relação meramente institucional.

Em 2 de junho de 2025, Weverton e Humberto Martins trocaram mensagens e fizeram uma ligação de aproximadamente cinco minutos. No mesmo dia, Gilbson foi transferido do sistema penitenciário do Maranhão para Brasília por determinação do ministro.

A decisão de Dino registra, porém, que a transferência havia sido formalmente solicitada pela própria Polícia Federal. O documento não estabelece que o contato entre Weverton e Martins tenha provocado a transferência.

A PF apura se Weverton usou sua proximidade com o ministro para tentar interferir no andamento da investigação.

Raimundo Cutrim é investigado por coação

Outro núcleo envolve Raimundo Soares Cutrim, ex-secretário de Segurança Pública e, à época da decisão, secretário de Estado de Assuntos Legislativos do Maranhão. Ele havia sido nomeado para o cargo em janeiro de 2025.

A PF investiga se Raimundo tentou convencer familiares de Gilbson a mudar os depoimentos já prestados e apresentar uma nova versão sobre o Caso Tech Office.

Uma gravação entregue aos investigadores registra uma conversa em que Raimundo orienta o pai de Gilbson sobre o que o condenado e sua esposa deveriam dizer. Na avaliação da PF, a intenção seria blindar o grupo do governador Carlos Brandão, afastando seus integrantes das acusações e construindo uma nova versão para os fatos já investigados.

O pai de Gilbson afirmou ainda que encontros com Raimundo teriam ocorrido, em algumas ocasiões, a pedido de integrantes da família Brandão, citando Marcus e Carlos Brandão, com o objetivo de fazê-lo e à sua esposa alterar as versões apresentadas à PF.

Ele declarou também ter recebido de Raimundo R$ 160 mil em dinheiro vivo, divididos em três parcelas de R$ 80 mil, R$ 50 mil e R$ 30 mil, e apontou Marcus Brandão, irmão do governador, como a origem dos recursos.

Diante dos fatos mais recentes, Dino decretou a prisão preventiva de Raimundo Cutrim. Como ele tem mais de 70 anos, a prisão foi convertida em domiciliar, com tornozeleira eletrônica.

O ministro também determinou o afastamento de Raimundo do cargo de secretário de Estado, proibiu entrevistas, declarações públicas, acesso a redes sociais e ligações telefônicas, além de autorizar busca e apreensão e outras medidas.

Dino aponta indícios de infiltração na PF

As decisões tornadas públicas revelam ainda uma suspeita dentro da própria Polícia Federal. O agente Edvar Rodrigues dos Santos é investigado por manter contatos sem autorização com o pai de Gilbson, apesar de não integrar a equipe responsável pela apuração.

A perícia encontrou 19 interações entre os dois, incluindo mensagens e ligações. Segundo a PF, Edvar demonstrava conhecer diligências sigilosas às quais não deveria ter acesso e chegou a se apresentar como integrante da equipe da investigação.

Os investigadores afirmam ainda que o agente orientou o pai de Gilbson a manter as conversas em segredo e apagou duas mensagens durante uma sequência de contatos.

Ao analisar esses elementos, Dino apontou “indícios de infiltração no âmbito da Polícia Federal”, com a possível atuação de um servidor para repassar informações sigilosas aos investigados.

Edvar foi afastado do cargo, alvo de busca e apreensão e proibido de manter contato com pessoas ligadas ao caso. As provas também foram encaminhadas às corregedorias da PF.

A decisão registra ainda suspeitas de que a estrutura da Secretaria de Segurança Pública do Maranhão tenha sido utilizada para proteger investigados e perseguir testemunhas ou pessoas dispostas a colaborar com a investigação.

Outro lado

O governador Carlos Brandão (MDB) se manifestou após a divulgação das decisões e classificou as acusações como falsas. Em publicação nas redes sociais, afirmou que está sendo alvo de perseguição e relacionou o episódio a fatos ocorridos a partir de 2024.

“Falsas acusações não cabem a quem não tem culpa. Vê-se a reedição do roteiro de um assassinato e muitas outras inverdades sendo propagadas contra mim”, escreveu.

Brandão afirmou ainda que a perseguição teria começado quando rejeitou “propostas indecorosas” e questionou a atuação de quem participa do julgamento do caso. “Devia haver impedimento de julgar quem é tratado como adversário. Tenho confiança de que a verdade prevalecerá”, declarou.

Em nota, o ministro Humberto Martins afirmou que, “em razão do processo tramitar sob segredo de Justiça, não irá se manifestar”. Acrescentou que os autos do habeas corpus foram encaminhados ao ministro Flávio Dino, relator do caso no STF.

O senador Weverton Rocha foi procurado para comentar as suspeitas apontadas pela Polícia Federal, mas não havia se manifestado até a publicação deste texto.

Daniel Brandão nega qualquer participação no Caso Tech Office. Sua assessoria afirma que o autor do homicídio inicialmente declarou que ele não tinha envolvimento com os fatos e sustenta que, posteriormente, familiares de Gilbson passaram a pressioná-lo em busca de auxílio jurídico e financeiro. Segundo Daniel, ele não cedeu às pressões e procurou as autoridades.

A defesa de Raimundo Cutrim nega irregularidades e afirma não ter tido acesso integral aos autos. Os advogados também questionam a atuação de Flávio Dino no caso, sob o argumento de que parte dos fatos investigados teria começado quando o ministro ainda era governador do Maranhão.

Avatar photo
Sobre o autor

Daniel Moraes

Jornalista, fundador e editor-chefe do jornal digital O Observador Maranhense.

Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários