Ensaio sobre Lahésio

"OPINIÃO

Lahésio Bonfim não se enxerga.

Na última quinta-feira (11), sem comunicar à direção estadual de seu partido, ele fez um vídeo anunciando a desistência de concorrer ao governo e a decisão de disputar uma vaga ao Senado.

Desde novembro do ano passado, Lahésio se oferece para Braide. Em uma entrevista, ele disse que o sonho do maranhense era ver o Norte se juntando ao Sul, numa referência a Braide, representando o Norte, e ele, logicamente, representando o Sul. Na mesma entrevista, Lahésio cogitou até a possibilidade de formar chapa com Braide, tendo como companheiro na outra vaga ao Senado o comunista Felipe Camarão. Disse Lahésio: “em política, nunca se pode dizer nunca.” Mais uma das muitas frases contraditórias de sua carreira. A fala repercutiu mal e ele voltou atrás e desmentiu a si mesmo.

Um dos maiores livros já escritos em língua portuguesa é de José Saramago e se chama Ensaio sobre a Cegueira. É um livro cuja tese central é que a verdadeira cegueira não é a incapacidade de enxergar com os olhos, mas a incapacidade de reconhecer a humanidade do outro e a sua própria, não perceber a realidade que está diante de todos.

Lahésio é o espelho do que se tornou a política nos tempos de hoje. Trata-se, obviamente, de mais um fenômeno da extrema-direita, um tema que vocês já notaram que eu gosto de falar, e que transforma tudo e todos em objetos de afeto. Não afeto no sentido de sentimento, mas afeto no sentido daquilo que nos afeta mesmo.

Nós não somos mais atingidos por uma organização mental profunda, subjetiva, que faz autoanálise e que nos coloca no nosso devido lugar de seres humanos finitos, limitados e medíocres mesmo. As pessoas se sentem, todas elas, relevantes e importantes. Tão relevantes e tão importantes que não precisam estudar, não precisam refletir e não precisam escolher um político preparado para governá-las.

Lahésio já foi filiado ao PT, já foi apaixonado pelo grupo Sarney, com juras de amor feitas em público, inclusive.

Hoje se diz um legítimo representante do bolsonarismo no Maranhão, mas é detestado por Bolsonaro e seus filhos.

Lahésio é médico e foi prefeito de uma cidade cujo nome representa, por si só, o tamanho da incoerência de seu ex-prefeito: São Pedro dos Crentes. Crentes (evangélicos), como se sabe, não acreditam nos santos da Igreja Católica.

São Pedro dos Crentes deu a Lahésio uma popularidade acima de 90% quando ele governou a cidade.

E qual foi o maior feito de Lahésio quando era prefeito de São Pedro dos Crentes? Ele deixou a cidade com um dos maiores indicadores de mortalidade infantil do Maranhão e, por consequência, do Brasil. Detalhe: Lahésio é médico.

Quando foi questionado sobre suas propostas para o Maranhão, ainda na condição de pré-candidato a governador, Lahésio disse que iria acabar com o Palácio dos Leões. Isso mesmo: destruir o Palácio dos Leões foi sua única proposta concreta para o Estado do Maranhão.

Sigamos…

Lahésio, em fase de alta, com mais de 15% das intenções de voto em todas as pesquisas, recebeu de Braide a oferta para ser deputado federal, segundo ele próprio. Indignado, foi às redes sociais e acusou Braide de tentar comprá-lo. Depois disso, Braide foi à região Sul, lançou uma vice bolsonarista irrelevante politicamente e aniquilou a pré-candidatura de Lahésio, que hoje tem, otimisticamente, 5% das intenções de voto.

Agora, praticamente destruído eleitoralmente, Lahésio quer ser novamente senador de Braide.

Braide aceitará? Se Braide não o quis quando ele estava em alta, vai querê-lo agora em baixa?

A única coisa que Braide precisava de Lahésio era de seu eleitorado. Bom, a maior parte do eleitorado de Lahésio já migrou para Braide. Então, para que Braide precisa de Lahésio?

Suas pretensões políticas não são mais levadas a sério. Há pesquisas em que Lahésio aparece com 2% das intenções de voto. É a melhor condição para negociar?

E se tiver condições de negociar, o NOVO pode simplesmente não dar a legenda a ele. O acordo original era para que Lahésio fosse candidato ao governo e Roberto Rocha candidato ao Senado. Lahésio descumpriu o acordo sem dar satisfação à cúpula partidária.

Todo esse emaranhado de informações sobre o ex-prefeito de São Pedro dos Crentes é para mostrar a sua incapacidade de tomar decisões com clareza, discernimento e lealdade política. É para explicar por que Lahésio não se enxerga.

O mais assustador, no entanto, é que esse senhor foi o segundo colocado na eleição de 2022 e, mesmo sendo uma pessoa mentalmente claudicante, segue sendo um nome bastante competitivo.

Na cidade sem nome de Ensaio sobre a Cegueira, Saramago mostra que a tragédia começa quando ninguém mais é capaz de reconhecer a própria condição. A cegueira deixa de ser exceção e passa a ser o modo normal de existir. Guardadas as proporções, é essa a imagem que Lahésio projeta na política maranhense: a de alguém que acumula contradições, perde espaço, muda de rota, rompe acordos e, ainda assim, age como se estivesse conduzindo algum grande movimento.

Mas o problema maior não é apenas Lahésio não se enxergar. É haver quem ainda confunda esse vazio político dele com liderança.

Os textos publicados na seção de colunas e artigos são de inteira responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, a posição editorial do O Observador Maranhense.
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Sobre o autor

Lígia Teixeira

Historiadora por vocação e jornalista por missão. Atua há mais de 20 anos na comunicação política e institucional, com passagens por campanhas eleitorais, jornalismo impresso e digital, além de áreas estratégicas da comunicação na administração pública. Tem experiência em análise de cenário, formulação de discurso, articulação com a imprensa e com a sociedade, além da produção de conteúdo em cenários de alta complexidade. Escreve semanalmente, aos domingos.

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