Iconoclasta e audacioso, espero que Júnior Garimpeiro seja o futuro da política maranhense

Lígia Teixeira
COLUNA Lígia Teixeira Historiadora por vocação e jornalista por missão. Atua há mais de 20 anos na comunicação política e institucional, com passagens por campanhas eleitorais, jornalismo impresso e digital, além de áreas estratégicas da comunicação na administração pública. Tem experiência em análise de cenário, formulação de discurso, articulação com a imprensa e com a sociedade, além da produção de conteúdo em cenários de alta complexidade. Escreve semanalmente, aos domingos. Historiadora por vocação e jornalista por missão. Atua há mais de 20 anos na comunicação política e institucional, com passagens por campanhas eleitorais, jornalismo impresso e digital, além de áreas estratégicas da comunicação na administração pública. Tem experiência em análise de cenário, formulação de discurso, articulação com a imprensa e com a sociedade, além da produção de conteúdo em cenários de alta complexidade. Escreve semanalmente, aos domingos.
OPINIÃO

Se tudo der certo, no próximo dia 6 de dezembro, o Maranhão assistirá a uma batalha de titãs: de um lado, o grupo do deputado federal Josimar de Maranhãozinho  (PL) e, do outro, o grupo do  prefeito de Centro Novo do Maranhão, Júnior Garimpeiro (PSDB), disputarão a Prefeitura de Nova Olinda do Maranhão. A eleição suplementar, convocada depois da cassação da chapa de Ary Menezes e Ronildo da Farmácia, transformou um município de pouco mais de 14 mil habitantes no cenário de uma disputa muito maior: a hegemonia política do extremo noroeste maranhense.

Eu, claro, vou torcer por Júnior Garimpeiro. Não necessariamente por admiração política. Minha preferência é de natureza antropológica: Garimpeiro é uma das figuras mais complexas da política maranhense.

Alguns observadores da cena política  estadual gostam de dizer que Júnior Garimpeiro é uma espécie de Josimar 2.0. Eu discordo integralmente. Josimar é racional, discreto, pragmático e extremamente organizado. Compreendeu que o poder exige método, alianças engajadas, paciência e uma administração cuidadosa das aparências. É um político de bastidores, desses que parecem considerar uma eleição menos uma manifestação popular do que uma operação de engenharia política e, sobretudo, financeira. Garimpeiro pertence a outra categoria. Intuitivo, exibicionista e iconoclasta, ele descobriu que a política contemporânea é, acima de tudo, espetáculo com ostentação.

E por que eu torço para Júnior Garimpeiro vencer as eleições em Nova Olinda? 

Josimar de Maranhãozinho representa a política tradicional do Centrão em sua versão mais organizada: família convencional, verniz religioso, herdeiros políticos e uma cuidadosa administração da estratégia política.  É o modelo do patriarca que compreende a importância de preservar a respeitabilidade enquanto distribui as peças pelo tabuleiro. Garimpeiro, ao contrário, declarou guerra à liturgia dos bons costumes. É audacioso e pouco preocupado em obter o certificado de aprovação da moral provinciana. Sua configuração familiar tendo duas companheiras com quem divide o poder, desafia abertamente o modelo tradicional, e ele  faz questão de não esconder isso. 

Na relação com o Poder Judiciário, a postura antagônica de ambos também  mostra a ousadia de Garimpeiro. Josimar foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a seis anos e cinco meses de prisão por corrupção passiva, em processo envolvendo desvios de emendas parlamentares. Garimpeiro, por sua vez, tem uma condenação relacionada a danos ambientais e um histórico de investigações e controvérsias envolvendo a atividade mineradora. 

Nessa relação, Garimpeiro cultiva uma postura de confronto, testa os limites da autoridade e parece enxergar nas decisões judiciais obstáculos que não precisam necessariamente interromper o espetáculo. O episódio do show de Natanzinho Lima é o melhor exemplo: depois de uma decisão que proibiu o emprego de recursos e estrutura públicos na apresentação, a festa aconteceu, sob a alegação do prefeito de que seria custeada com dinheiro privado. Não está demonstrado, por esse fato isoladamente, que a ordem tenha sido descumprida, mas a encenação pública foi, no mínimo, provocadora, Garimpeiro debochou duplamente do sistema de justiça, desafiando a determinação legal e ostentando em público suas duas companheiras: a primeira-dama de Centro Novo, Natali Lima e a deputada estadual eleita, Nathalia do Júnior Garimpeiro. 

Josimar, por sua vez, pertence à escola dos acordos, das articulações e da negociação permanente. É menos afeito ao confronto teatral e mais interessado em administrar as circunstâncias judiciais desfavoráveis fortalecendo seu entorno familiar e político. Um desafia o protocolo; o outro conhece seus corredores. Um parece preferir o espetáculo da insubordinação; o outro, a diplomacia dos interesses.

Se o grupo de Júnior Garimpeiro vencer a eleição em Nova Olinda, será mais uma pá de cal no combalido Estado Democrático de Direito. Será a vitória do Maranhão real e profundo: aquele das relações de compadrio, do favor que substitui o direito, da violência simbólica, do mando pessoal, da dependência econômica e da humilhação como instrumento de poder. Um Maranhão onde a pobreza convive com o patrimonialismo, a autoridade se confunde com propriedade privada, a lealdade vale mais que a competência e as instituições frequentemente se curvam diante da vontade dos poderosos. É o Maranhão em que a prefeitura vira extensão da casa do chefe, os aliados se comportam como vassalos e a população, tantas vezes privada de direitos básicos, é convocada a agradecer como favor aquilo que deveria receber como obrigação do Estado.

Júnior Garimpeiro talvez seja a expressão mais despudorada dessa realidade. Ele não precisa do verniz da respeitabilidade, do discurso republicano ou da fotografia de família tradicional para exercer seu poder. É a política sem maquiagem, sem constrangimento e sem maiores preocupações em disfarçar suas contradições.  O exercício sem máscara desse tipo de poder nos mostra muito claramente o tamanho da nossa decadência. E, olhando por esse ângulo, ao desnudar a hipocrisia e mostrar a vida como ela é,  Garimpeiro não deixa de ser um revolucionário.

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