Gilbson Cutrim Júnior, condenado pelo assassinato do empresário João Bosco no Caso Tech Office, entregou à Polícia Federal documentos, fotografias e outros registros que, segundo sua defesa, podem ajudar a comprovar as acusações feitas por ele contra integrantes do grupo do governador Carlos Brandão (MDB).
As informações e os documentos foram revelados em reportagem do jornalista Reynaldo Turollo Jr., do g1.
Entre os materiais apresentados aos investigadores estão uma folha escrita à mão com números de processos, a fotografia de uma etiqueta do Banco do Brasil que teria acompanhado um maço de dinheiro entregue à família de Gilbson e a imagem de um veículo que, segundo a defesa, teria sido utilizado para levar pagamentos em espécie.
Também foram entregues à PF registros de contatos telefônicos e o recibo de um pagamento feito pela empresa apontada como origem do desentendimento que terminou no assassinato de João Bosco, em agosto de 2022.
O esquema
Segundo a defesa de Gilbson, ele teria sido encarregado de procurar empresas que possuíam valores a receber de gestões anteriores do governo do Maranhão. A prioridade seria para créditos superiores a R$ 5 milhões.
“Ficou acertado que Gilbson César Soares Cutrim Júnior deveria ‘correr atrás’ de empresas que teriam valores a receber de gestões passadas, mais especificamente os valores que fossem acima de R$ 5 milhões”, afirma a defesa em petição encaminhada à Polícia Federal.

A versão apresentada por Gilbson é de que o esquema consistia em localizar empresas com créditos antigos, viabilizar o pagamento desses valores pelo governo e, posteriormente, receber de volta parte do dinheiro para distribuição entre integrantes do grupo.
Como suposta prova dessa atuação, a defesa apresentou à PF a fotografia de uma relação manuscrita com números de processos que teria sido repassada a Gilbson.
Compra de silêncio
Gilbson também afirma que, depois de ser preso pelo assassinato de João Bosco, integrantes do grupo teriam passado a pagar sua família para que ele permanecesse em silêncio.
Segundo a defesa, teria sido oferecido inicialmente o pagamento de R$ 30 mil por mês. Na prática, porém, a família teria recebido parcelas mensais de R$ 15 mil.
“Foi oferecida a importância mensal de R$ 30 mil para comprar o seu silêncio. Acontece, entretanto, que do valor acordado, somente R$ 15 mil passaram a ser recebidos pela família do preso”, afirmou a defesa à PF.
Ainda segundo o documento, os pagamentos seriam feitos em dinheiro vivo por intermédio de um homem identificado como Erick, apontado como motorista de Marcus Brandão, irmão do governador. O dinheiro teria sido entregue diretamente ao pai de Gilbson.
Em uma dessas ocasiões, a família fotografou o carro que teria sido utilizado para levar o dinheiro. A imagem foi entregue à Polícia Federal com o objetivo de permitir a identificação do proprietário do veículo a partir da placa.

Outro registro apresentado aos investigadores mostra uma etiqueta que, segundo a defesa, acompanhava um dos maços de dinheiro recebidos pela família. A etiqueta teria identificação do Banco do Brasil.
A expectativa da defesa é que os dados permitam à PF identificar a agência bancária de origem e, eventualmente, chegar a quem realizou o saque das cédulas.

Caso Tech Office
Gilbson Cutrim Júnior foi condenado, em 2024, a 13 anos de prisão pelo assassinato de João Bosco, ocorrido no edifício Tech Office, em São Luís.
A investigação inicial da Polícia Civil tratou o homicídio como resultado de um desentendimento pessoal. Posteriormente, a Polícia Federal passou a investigar a ligação do crime com um suposto esquema de propina envolvendo pagamentos públicos.
Em depoimento prestado à PF em fevereiro deste ano, Gilbson afirmou que mantinha contato com integrantes da família Brandão, que participou de reuniões no Palácio dos Leões e que chegou a transportar valores ligados ao suposto esquema.
Ele também afirmou que Daniel Brandão convocou a reunião realizada no Tech Office no dia do assassinato e disse acreditar que havia sido atraído ao local para ser morto por causa do que sabia.
Na última segunda-feira (17), o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o afastamento de Daniel Brandão de suas funções no Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA) por 180 dias.
O que dizem Daniel e Carlos Brandão
Daniel Brandão nega envolvimento nos crimes investigados e afirmou que vai comprovar sua “absoluta inocência”. Disse ainda estar à disposição das autoridades para prestar os esclarecimentos necessários.
Carlos Brandão também nega as acusações. O governador contesta a credibilidade de Gilbson, afirma que nunca manteve relação com ele e classificou como “mentirosas” as declarações de que teria recebido valores dentro do Palácio dos Leões.
Na noite de terça-feira (18), Brandão voltou a se pronunciar sobre o caso e afirmou que “não há sequer uma prova” das acusações. O governador também sustenta que passou a ser alvo de investigações após o rompimento político com Flávio Dino e afirma que sua defesa ainda não teve acesso à integralidade dos autos.
