A Polícia Federal aponta o governador Carlos Brandão (MDB) como “provável líder da organização criminosa ora investigada” em uma das apurações relacionadas ao Caso Tech Office, que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF).
A conclusão da PF aparece em trecho reproduzido em decisão do ministro Flávio Dino, que retirou o sigilo de parte das investigações nesta sexta-feira (14). Os inquéritos apuram suspeitas de homicídio, corrupção, peculato, organização criminosa, obstrução à Justiça e coação no curso do processo.
Ao descrever o funcionamento do suposto esquema, a Polícia Federal afirma que Gilbson César Soares Cutrim Júnior atuava na circulação de documentos e dinheiro em espécie entre integrantes do núcleo político, após interlocução direta com Daniel Brandão, presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MA) e sobrinho do governador.
É nesse trecho que a PF identifica o governador como “provável líder da organização criminosa ora investigada”.
Segundo os investigadores, o grupo teria estabelecido um sistema para selecionar empresas beneficiadas pela liberação de pagamentos feitos com recursos públicos, inclusive relacionados a débitos já prescritos.
A PF afirma que eram priorizados débitos de maior valor, normalmente superiores a R$ 5 milhões. Na avaliação dos investigadores, pagamentos maiores permitiriam inserir quantias ilícitas mais elevadas no fluxo financeiro e, consequentemente, gerar propinas maiores.
PF relaciona esquema ao Caso Tech Office
A investigação também relaciona esse suposto esquema ao assassinato de João Bosco Sobrinho Pereira de Oliveira, ocorrido em agosto de 2022, em São Luís, no episódio que ficou conhecido como Caso Tech Office.
De acordo com a PF, a escolha da empresa S.H. Vigilância e Segurança Eireli para receber pagamentos teria provocado desentendimentos entre integrantes do grupo sobre a divisão do dinheiro.
Segundo a investigação, Daniel Brandão teria chamado Gilbson para uma reunião em 19 de agosto de 2022. No local estavam também João Bosco e Werberth Macedo Castro, o Beto Castro, vereador de São Luís.
A PF afirma que a discussão envolveu a divisão de valores decorrentes dos pagamentos, porque havia suspeita de que Gilbson estivesse recebendo dinheiro das empresas intermediadas por ele e não repassando a parte destinada aos demais integrantes do grupo. Daniel deixou o local durante a discussão e, pouco depois, Gilbson atirou em João Bosco.
Na avaliação apresentada pela Polícia Federal, o homicídio ocorrido em 2022 passou a desencadear uma série de acontecimentos posteriores, incluindo atos que teriam como objetivo impedir ou dificultar as investigações no Maranhão, no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no próprio STF.
As apurações também avançaram sobre suspeitas de coação de testemunhas e tentativas de modificar depoimentos para proteger integrantes do grupo. Em outra representação, a PF afirmou ter identificado uma estrutura de operadores e interlocutores destinada a preservar os “reais mandatários” da organização e dificultar a vinculação deles aos fatos investigados.
Brandão nega e fala em perseguição
Carlos Brandão reagiu às suspeitas e negou envolvimento nos fatos. Em publicação nas redes sociais, classificou as afirmações contra ele como falsas e disse estar sendo alvo de perseguição.
“Falsas acusações não cabem a quem não tem culpa. Vê-se a reedição do roteiro de um assassinato e muitas outras inverdades sendo propagadas contra mim”, afirmou.
O governador disse ainda que a suposta perseguição teria começado em 2024, quando, segundo ele, rejeitou “propostas indecorosas”.
Sem citar Flávio Dino nominalmente, Brandão também questionou a atuação de quem julga o caso. “Devia haver impedimento de julgar quem é tratado como adversário. Tenho confiança de que a verdade prevalecerá”, declarou.
