Em um dia de agosto de 1984, enquanto o regime militar dava seus últimos suspiros, o PDS, partido oficial de sustentação da ditadura militar e sucessor da ARENA, se dividia para escolher quem representaria o partido na sucessão do presidente general João Figueiredo. De um lado, estavam os defensores de Paulo Maluf. Do outro, o grupo de José Sarney, então senador pelo Maranhão e presidente nacional da legenda, que, percebendo a decadência do regime militar, articulava uma saída para continuar próximo do poder.
Sarney entrou em uma reunião do PDS sob a fúria dos deputados malufistas que já o enxergavam como traidor. Os parlamentares gritavam, acusavam e se aproximavam tanto que ele sentia no rosto os perdigotos lançados pela raiva dos correligionários. Mesmo assim, manteve-se frio.
A explicação para a calma viria depois e saiu da boca do próprio Sarney: por debaixo do paletó bem cortado, o senador maranhense portava uma moderna pistola e havia treinado para atirar e acertar.
Pois é: o homem que se apresentava como intelectual não pensou duas vezes antes de levar uma arma para uma reunião partidária. A lógica de Sarney era simples: sobreviver a qualquer custo àquela reunião, ainda que isso custasse uma troca de tiros.
Ali nasceu a essência do que é o Centrão, nome criado anos mais tarde para explicar a postura da bancada do PMDB no Congresso, partido do próprio Sarney, naqueles primeiros anos de abertura política do Brasil.
Nada mimetiza melhor o que é o Centrão do que a postura de Sarney no dia em que traiu o PDS e pulou para o barco de Tancredo.
O Centrão é uma mistura de frieza, pragmatismo, força bruta e teatro político. É uma tradição da Nova República que nasceu há mais de 40 anos com a estrutura metodológica criada por um maranhense. Por isso, os políticos do Maranhão até hoje são protagonistas nas disputas por cargos e espaços políticos usando a força do Congresso Nacional.
André Fufuca nasceu em agosto de 1989, exatamente cinco anos depois dos eventos envolvendo Sarney na reunião do PDS, em agosto de 1984. Filho do astuto Fufuca Dantas e herdeiro de um grupo político consolidado no Maranhão, construiu sua carreira muito cedo, tornando-se deputado estadual com apenas 21 anos e em um partido conhecido por não se posicionar claramente no jogo político: o PSDB. Logo depois, elegeu-se deputado federal. Em Brasília, aproximou-se rapidamente do núcleo de poder do Congresso, primeiro sob a influência de Eduardo Cunha, depois de Arthur Lira e do bolsonarismo, migrando depois para o campo lulista, ocupando o Ministério do Esporte no governo Lula.
Por essas razões, a metralhadora giratória do aparato midiático da blogosfera maranhense voltada contra André Fufuca ao longo desta semana dificilmente surtirá o efeito pretendido. Fufuca não é uma exceção na política brasileira contemporânea. É a regra. Seu método não foi inventado por ele, mas por outro maranhense, José Sarney, há mais de quatro décadas, quando o ex-ministro sequer havia nascido. Fufuca é filho político de uma lógica anterior à sua própria existência: sobreviver acima de qualquer compromisso permanente com grupos, discursos ou projetos de poder.
Sua mais recente mudança de posição, ao deixar o campo governista de Carlos Brandão para se aproximar politicamente de Eduardo Braide, é apenas mais uma manifestação desse pragmatismo típico do Centrão. Tem pouco ou nada a ver com lealdade ou pedidos supremos. Trata-se, acima de tudo, de um cálculo de sobrevivência política.
O maior problema de Fufuca, aliás, passa longe da tentativa de rotulá-lo como traidor. Como efetivo membro do Centrão, Fufuca é o tipo de político que não gera no eleitorado nenhum sentimento claro, nem de amor nem de ódio. Isso, em tempos de redes sociais que mobilizam afetos o tempo inteiro, é, sem dúvida, seu grande desafio. Mas ele sabe disso, tanto é que seu primeiro ato político depois da mudança de lado foi em um evento de pura emoção: junto com Eduardo Braide, comemorou em praça pública a vitória do Brasil por 3×0 contra o irrelevante Haiti, na Copa do Mundo.
Fufuca pulou, comemorou e abraçou o mais novo aliado político a cada gol do Brasil.
As próximas pesquisas dirão se o esforço para colar em Braide surtirá efeito, mas uma coisa é certa: no futuro, se Braide não atender mais aos interesses políticos de Fufuca, você já sabe o que ele fará.
