Faz tempo que eu gostaria de escrever sobre este assunto. Há pelo menos dois anos, desde que a disputa entre camaronistas e brandonistas começou a reorganizar o ambiente político do Maranhão, venho percebendo uma alteração psíquica profunda nas pessoas.
Atuo na atividade de assessoramento político há mais de 20 anos. Antes disso, fui militante partidária no ensino médio e na universidade. Sempre estive nesse meio e aprendi a perceber como a política afeta emocionalmente quem vive, trabalha ou orbita nesse ambiente. Hoje vejo, com muita clareza, que a disputa eleitoral em curso aprofundou um estado de sofrimento psíquico nas pessoas em patamares inimagináveis.
Uma coisa importante precisa ser dita: a política, aqui no Maranhão e em qualquer outro lugar, costuma atrair pessoas mentalmente fragilizadas.
Não posso e nem quero fazer diagnósticos. Não sou psiquiatra e, na verdade, qualquer pessoa que frequente gabinetes, campanhas, grupos políticos e ambientes de poder por tempo suficiente aprende a reconhecer certos padrões: ansiedade permanente, necessidade intensa de reconhecimento, dificuldade de lidar com rejeições, comportamento obsessivo, desconfiança constante e relações marcadas por conflitos recorrentes.
A diferença é que a disputa pela sucessão estadual deste ano se transformou num grande vetor da ampliação do desequilíbrio emocional coletivo e latente no Maranhão.
O antigo grupo político que se consolidou em torno do governo Flávio Dino fragmentou-se. Hoje, dinistas históricos se encontram divididos entre brandonistas e camaronistas que decidiram travar uma batalha que, por si só, é cheia de componentes irracionais. Ao mesmo tempo, as pesquisas apontam para um cenário em que Eduardo Braide aparece como forte protagonista da disputa.
Para quem olha de fora, isso é apenas política.
Para quem vive dentro dela, não.
Porque, no Maranhão, a política não é apenas política.
Ela é emprego, renda, influência, prestígio, pertencimento e perspectiva de futuro para a maioria das pessoas.
Em estados com economia mais diversificada, uma derrota eleitoral pode representar apenas uma mudança de governo. No Maranhão, ela significa a possibilidade concreta de perder espaço profissional, relações construídas durante décadas e até a identidade que organizou a própria existência das pessoas.
Christophe Dejours, referência na psicodinâmica do trabalho, mostrou que o sofrimento psíquico não nasce apenas da vida íntima, mas também da forma como o trabalho organiza reconhecimento, pertencimento e lugar no mundo, além, é claro. O problema é que boa parte das pessoas que orbitam a política maranhense vive hoje exatamente uma ruptura nessa dimensão: ninguém sabe o que pode realmente acontecer se Braide vencer as eleições, quem continuará relevante, quem será descartado e quem ainda terá acesso aos espaços de influência. Quando o trabalho, a identidade e o futuro dependem de uma estrutura política instável, a incerteza deixa de ser apenas eleitoral. Ela passa a ser psíquica.
A incerteza virou rotina no Maranhão.
E a incerteza prolongada produz sofrimento.
No Maranhão, esse sofrimento psíquico também ganha força porque a candidatura de Braide organiza uma narrativa típica da extrema direita: medo, ameaça, inimigos. Isso contamina o ambiente político inteiro e aprofunda a sensação de desamparo generalizado.
O resultado é um ambiente tomado por rumores, medo, ansiedade e hipervigilância. Cada fotografia ganha significado oculto. Cada reunião produz especulações. Cada gesto é interpretado como sinal de aproximação, traição ou exclusão.
Ao longo da minha vida profissional, sempre percebi que a política atrai pessoas em diferentes graus de sofrimento psíquico. Há os “doidinhos de praça”, pessoas em vulnerabilidade social e mental que circulam pelos corredores, esperam o político sair, abordam perto do carro, pedem dinheiro para almoçar, buscam um gesto de atenção, um minuto de importância. No Maranhão, há uma larga tradição desses personagens da vida pública, registrada inclusive por Raimundo Bogéa no delicioso livro Pedras da Rua, que conta a história de muitos “doidinhos de praça”, entre eles Bota Pra Moer, talvez o mais famoso zé doidinho da história política maranhense.
Mas o problema está mesmo é no círculo mais próximo dos políticos, nas pessoas que vivem de campanhas, mandatos, gabinetes, articulações, grupos e expectativas de poder. Não falo de um grupo específico. Falo de todo o ecossistema político, profundamente contaminado por pessoas em altíssimo grau de sofrimento psíquico, produzindo um ambiente político ainda mais caótico e tomado por ansiedade, medo, desespero e desconfiança.
E isso é particularmente grave porque quem orbita a política também ajuda a governar. Essas pessoas formulam discursos, organizam decisões, interpretam crises, aconselham lideranças e influenciam caminhos que afetam milhões de maranhenses.
Quando esse entorno adoece, a política deixa de ser apenas um espaço de disputa. Torna-se também uma máquina de produzir sofrimento e morte, tanto física quanto espiritual.
