Checamos: declarações de vereadora sobre vacinas contra a covid-19 são enganosas

Por Rafael Dantas | 04/05/2026

A vereadora Flávia Berthier (PL) usou a tribuna da Câmara Municipal de São Luís, nesta segunda-feira (4), para questionar a segurança das vacinas contra a covid-19 e associar os imunizantes a diferentes riscos graves à saúde.

No discurso, Flávia afirmou que a população teria sido usada como “cobaia”, questionou se as vacinas estavam prontas para aplicação em seres humanos e disse que não teria havido tempo para testes em animais. A vereadora também afirmou que mortes súbitas registradas atualmente, inclusive entre adolescentes, estariam relacionadas à vacinação contra a covid-19.

O Observador Maranhense checou as principais declarações feitas pela parlamentar. Documentos oficiais da Anvisa e do Ministério da Saúde, além das bulas dos imunizantes e de estudos científicos publicados em revistas internacionais, não sustentam as afirmações.

Testes antes da aplicação em humanos

A afirmação de que a população foi usada como “cobaia” e de que não houve testes em animais não corresponde aos dados disponíveis.

A vacina da Pfizer passou por estudos pré-clínicos antes do uso em larga escala. Essa etapa inclui testes em laboratório e em animais antes da aplicação em seres humanos. Os testes foram realizados ainda em 2020 e incluíram camundongos e macacos rhesus, uma espécie de primata frequentemente utilizada em estudos biomédicos.

Artigo publicado na revista científica Nature descreveu que vacinas candidatas da Pfizer/BioNTech protegeram macacos rhesus contra o vírus causador da covid-19.

Eficácia da vacina da Pfizer

A tese de que a vacina da Pfizer não teria comprovação de eficiência também não corresponde aos dados científicos. Estudo de fase 3 publicado no New England Journal of Medicine apontou que o esquema de duas doses da BNT162b2 conferiu 95% de proteção contra a covid-19 sintomática em pessoas com 16 anos ou mais.

Contrato da Pfizer como suposta prova de efeitos colaterais

A vereadora citou o contrato da Pfizer como argumento para relacionar a vacina a efeitos como trombose, infarto e morte súbita.

O contrato de compra de vacinas, porém, é um documento jurídico e comercial. Ele trata de condições de aquisição, fornecimento e responsabilidade civil. Não é bula, não substitui a análise da Anvisa e não serve como documento médico para comprovar efeitos colaterais.

Infarto e morte súbita na bula da Pfizer

A bula da Comirnaty, vacina da Pfizer contra a covid-19, não lista infarto nem morte súbita como reações adversas causadas pelo imunizante.

O documento registra miocardite e pericardite como eventos muito raros. Pela classificação usada em bulas, “muito raro” significa ocorrência em menos de 1 caso a cada 10 mil pessoas vacinadas, o equivalente a menos de 0,01%.

Trombose associada às vacinas

A fala da vereadora trata a trombose como um risco geral das vacinas contra a covid-19. Os registros de segurança, porém, não apontam essa relação de forma ampla.

O que foi identificado pelas autoridades sanitárias foi um evento específico e raro, chamado trombose com trombocitopenia, associado principalmente a vacinas de vetor de adenovírus, como AstraZeneca e Janssen. A Anvisa registrou esse alerta em 2021 e passou a orientar o monitoramento dos casos.

Essa condição específica não confirma a afirmação genérica de que vacinas contra a covid-19 causam trombose, nem sustenta a associação feita pela vereadora entre vacinação, infarto e morte súbita.

Mortes súbitas após a vacinação

A vereadora afirmou que mortes súbitas registradas atualmente estariam relacionadas à vacinação contra a covid-19, citando inclusive casos em adolescentes.

O Ministério da Saúde informa que não há comprovação científica de relação entre vacinas contra a covid-19 e casos de mal súbito ou morte súbita.

Em publicação do Saúde com Ciência, a pasta afirma que estudos científicos e sistemas de monitoramento em todo o mundo não mostram evidências de que as vacinas causem morte súbita tardia ou danos progressivos ao coração.

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Rafael Dantas

Redator e colunista do O Observador Maranhense.

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