A vereadora Flávia Berthier (PL) usou a tribuna da Câmara Municipal de São Luís, nesta segunda-feira (4), para questionar a segurança das vacinas contra a covid-19 e associar os imunizantes a diferentes riscos graves à saúde.
No discurso, Flávia afirmou que a população teria sido usada como “cobaia”, questionou se as vacinas estavam prontas para aplicação em seres humanos e disse que não teria havido tempo para testes em animais. A vereadora também afirmou que mortes súbitas registradas atualmente, inclusive entre adolescentes, estariam relacionadas à vacinação contra a covid-19.
O Observador Maranhense checou as principais declarações feitas pela parlamentar. Documentos oficiais da Anvisa e do Ministério da Saúde, além das bulas dos imunizantes e de estudos científicos publicados em revistas internacionais, não sustentam as afirmações.
Testes antes da aplicação em humanos
A afirmação de que a população foi usada como “cobaia” e de que não houve testes em animais não corresponde aos dados disponíveis.
A vacina da Pfizer passou por estudos pré-clínicos antes do uso em larga escala. Essa etapa inclui testes em laboratório e em animais antes da aplicação em seres humanos. Os testes foram realizados ainda em 2020 e incluíram camundongos e macacos rhesus, uma espécie de primata frequentemente utilizada em estudos biomédicos.
Artigo publicado na revista científica Nature descreveu que vacinas candidatas da Pfizer/BioNTech protegeram macacos rhesus contra o vírus causador da covid-19.
Eficácia da vacina da Pfizer
A tese de que a vacina da Pfizer não teria comprovação de eficiência também não corresponde aos dados científicos. Estudo de fase 3 publicado no New England Journal of Medicine apontou que o esquema de duas doses da BNT162b2 conferiu 95% de proteção contra a covid-19 sintomática em pessoas com 16 anos ou mais.
Contrato da Pfizer como suposta prova de efeitos colaterais
A vereadora citou o contrato da Pfizer como argumento para relacionar a vacina a efeitos como trombose, infarto e morte súbita.
O contrato de compra de vacinas, porém, é um documento jurídico e comercial. Ele trata de condições de aquisição, fornecimento e responsabilidade civil. Não é bula, não substitui a análise da Anvisa e não serve como documento médico para comprovar efeitos colaterais.
Infarto e morte súbita na bula da Pfizer
A bula da Comirnaty, vacina da Pfizer contra a covid-19, não lista infarto nem morte súbita como reações adversas causadas pelo imunizante.
O documento registra miocardite e pericardite como eventos muito raros. Pela classificação usada em bulas, “muito raro” significa ocorrência em menos de 1 caso a cada 10 mil pessoas vacinadas, o equivalente a menos de 0,01%.
Trombose associada às vacinas
A fala da vereadora trata a trombose como um risco geral das vacinas contra a covid-19. Os registros de segurança, porém, não apontam essa relação de forma ampla.
O que foi identificado pelas autoridades sanitárias foi um evento específico e raro, chamado trombose com trombocitopenia, associado principalmente a vacinas de vetor de adenovírus, como AstraZeneca e Janssen. A Anvisa registrou esse alerta em 2021 e passou a orientar o monitoramento dos casos.
Essa condição específica não confirma a afirmação genérica de que vacinas contra a covid-19 causam trombose, nem sustenta a associação feita pela vereadora entre vacinação, infarto e morte súbita.
Mortes súbitas após a vacinação
A vereadora afirmou que mortes súbitas registradas atualmente estariam relacionadas à vacinação contra a covid-19, citando inclusive casos em adolescentes.
O Ministério da Saúde informa que não há comprovação científica de relação entre vacinas contra a covid-19 e casos de mal súbito ou morte súbita.
Em publicação do Saúde com Ciência, a pasta afirma que estudos científicos e sistemas de monitoramento em todo o mundo não mostram evidências de que as vacinas causem morte súbita tardia ou danos progressivos ao coração.
