O plano de Zé Reinaldo contra Sarney em 2006 e o paralelo com a atual disputa pelo governo

ANÁLISE

Em abril de 2006, talvez num domingo como este, o então governador do Maranhão, José Reinaldo Tavares, concluía um planejamento estratégico detalhado para derrotar o grupo Sarney na eleição para o governo do estado, marcada para dali a seis meses, em outubro daquele ano.

Rompido com o ex-presidente José Sarney em razão de uma disputa familiar que envolvia a ex-governadora Roseana Sarney, seu marido, Jorge Murad, e a então primeira-dama do estado, Alexandra Tavares, Zé Reinaldo montou um núcleo político para desenhar a ofensiva eleitoral.

Esse núcleo de planejamento era liderado por ele próprio e com a participação do então presidente do PSDB, o ex-deputado federal Jaime Santana, e com o marqueteiro do partido na época, Orjan Olsen. Juntos, elaboraram uma ampla pesquisa qualitativa que apontava dois cenários muito claros.

O primeiro: Roseana Sarney mantinha um índice de aprovação altíssimo, na casa de 80%.

O segundo: sua popularidade era ainda mais forte nos municípios mais pobres do Maranhão, o que levava à conclusão de que havia ali um projeto de dominação política assentado sobre a vulnerabilidade econômica e social da população maranhense. 

Diante desse quadro, o grupo de trabalho concluiu que, para vencer a eleição, seria necessário fragmentar as candidaturas, de modo a produzir uma segmentação eleitoral no primeiro turno. 

Como a migração direta de eleitores era considerada difícil, a estratégia escolhida foi lançar várias candidaturas com funções distintas. O ex-ministro do STJ Edson Vidigal (PSB) entraria como figura de transição, capaz de atrair parcelas do eleitorado ligado a Sarney que já demonstravam desgaste com o governo, mas ainda resistiam a migrar diretamente para Jackson Lago, uma vez que os dois representavam campos políticos antagônicos.

Já a candidatura de Aderson Lago (PSDB) cumpria outra função. Ajustada à regra da verticalização (mecanismo eleitoral que, à época, impunha coerência entre as alianças nacionais e estaduais), ela funcionava como instrumento de questionamento político e jurídico do grupo Sarney.

A terceira candidatura era a de Jackson Lago, a mais estruturada no campo progressista. Jackson defendia que as forças de oposição ao grupo Sarney deveriam se unir já no primeiro turno, em torno de uma candidatura única. Zé Reinaldo, no entanto, apostou em outro desenho. Para executar essa engenharia, chamou o sobrinho Marcelo Tavares, a quem coube a tarefa de articular as diversas candidaturas concebidas dentro daquele arranjo. 

Ao fim do processo, a decisão se mostrou acertada politicamente. No segundo turno, Jackson consolidou sua candidatura com o apoio das demais forças que haviam participado da estratégia, e a população acabou compreendendo e abraçando aquele projeto.

Mas Jackson e Zé Reinaldo, como sabemos, não detinham o controle do Poder Judiciário àquela época e o grupo Sarney acabou voltando ao poder pouco tempo depois, por determinação do Tribunal Superior Eleitoral, presidido por um ministro do STF. 

Trago de volta esse movimento de vinte anos atrás por uma razão que a meu ver é dramática:  a história política do Maranhão vive ciclos de repetição que giram em torno de enredos clássicos produzidos sempre pelos mesmos poderosos. Mudam alguns nomes (sobrenomes nem tanto), mudam alguns personagens laterais, mudam as circunstâncias aparentes, mas a engrenagem e as famílias geralmente são as mesmas. O ano de 2026, por exemplo, segue roteiro muito semelhante ao de 2006. 

Em muitos momentos o Maranhão lembra uma espécie de Macondo, a aldeia de Gabriel García Márquez em que o tempo gira em círculos e os fatos parecem retornar sob a forma de maldição. Em outros, a imagem clássica do 18 Brumário, de Karl Marx, mostram que nossa história vive se repetindo como farsa, ou como tragédia. 

Os textos publicados na seção de colunas e artigos são de inteira responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, a posição editorial do O Observador Maranhense.
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Sobre o autor

Lígia Teixeira

Historiadora por vocação e jornalista por missão. Atua há mais de 20 anos na comunicação política e institucional, com passagens por campanhas eleitorais, jornalismo impresso e digital, além de áreas estratégicas da comunicação na administração pública. Tem experiência em análise de cenário, formulação de discurso, articulação com a imprensa e com a sociedade, além da produção de conteúdo em cenários de alta complexidade. Escreve semanalmente, aos domingos.

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