Em uma de suas muitas produções acadêmicas, o professor e jornalista maranhense Franklin Douglas fez uma análise muito interessante sobre a dinâmica da história política maranhense. Ao escrever sobre a greve estudantil de 1979 em São Luís, ele sugere que aquele movimento refletia transformações políticas e culturais que já vinham ocorrendo há anos em outras partes do mundo.
A mobilização estudantil maranhense de 1979 foi um eco tardio dos movimentos de contestação que marcaram o ano 1968, especialmente na Europa e nos Estados Unidos. Foi o ano das manifestações estudantis em Paris, dos protestos contra a Guerra do Vietnã e de uma ampla onda de questionamento das estruturas tradicionais de poder.
O Maranhão ficou longe do mundo e algumas transformações históricas parecem chegar ao nosso estado muito depois de já terem se consolidado em outros lugares.
Talvez essa seja uma reflexão útil para compreender a sucessão estadual de 2026.
Parte do fenômeno eleitoral em que Braide está se transformando pode ser explicado porque o Maranhão vive intensamente a chegada de um ciclo político que ganhou força nacional em 2018.
Alguns amigos analistas acham que o que está acontecendo no Maranhão é algo semelhante ao que já ocorreu em 2014 com a ascensão de Flávio Dino, quando o eleitor optou por uma mudança no rumo político do Estado depois de meio século de continuísmo oligárquico e que esse processo de mudança está sendo concluído com uma provável eleição de Braide.
Eu discordo respeitosamente e posso estar errada, claro.
Steven Levitsky e Daniel Ziblatt escreveram também em 2018 sobre um fenômeno mundial que estava em curso naquela época: o uso do sistema democrático para destruir o próprio sistema democrático.
Segundo eles, democracias contemporâneas raramente são destruídas por golpes clássicos. Não são os tanques que normalmente chegam primeiro. São lideranças eleitas que, pouco a pouco, esvaziam instituições, enfraquecem mecanismos de controle e substituem a confiança nas regras pela confiança em si mesmas.
Não se fecha o Parlamento.
Torna-se o Parlamento irrelevante. Foi o que Braide fez com a Câmara de São Luís: aproveitou a baixa qualidade parlamentar de alguns vereadores para desqualificar a instituição em si.
Não se extinguem as organizações da sociedade.
Convence-se a população de que elas são desnecessárias.
Foi o que Braide fez com os sindicatos. Passou anos negando aumento salarial aos professores, no único ano em que resolveu oferecer um reajuste melhor, pediu aos docentes que abandonassem o sindicato.
Não se revogam as regras.
Transformam-se as regras em peças decorativas. Foi o que Braide fez com o orçamento municipal, votado na Câmara, mas transformado em peça de ficção com suplementações e realocação de recursos que subvertem princípios constitucionais de planejamento.
É por isso que o Braide de 2026, é a repetição do Jair Bolsonaro de 2018 com oito anos de atraso.
O bolsonarismo não se tornou um fenômeno nacional apenas porque defendia determinadas pautas conservadoras. Seu principal combustível foi a desmoralização das instituições. Partidos não prestavam. Congresso não prestava. Imprensa não prestava. Sindicatos não prestavam. O sistema inteiro aparecia como um obstáculo entre o líder e o povo.
A solução oferecida era simples: menos instituições, mais liderança.
Guardadas as diferenças de escala e contexto, a trajetória de Braide apresenta semelhanças inquietantes.
Sua força política não deriva de uma máquina partidária robusta, de uma grande coalizão social ou de uma construção institucional consistente, como foi o caso de Flávio Dino. Deriva da centralidade da sua própria imagem. O protagonista não é a Prefeitura. É Braide. Não é a política pública. É o gestor. Não é a instituição. É o indivíduo.
O líder ocupa todo o espaço.
A lógica passa a ser: não negociem através das instituições. Negociem comigo diretamente.
É uma forma sofisticada de desintermediação política, ou como diz um amigo meu: um jeito de acabar com o atravessador.
Braide compreendeu, talvez como nenhum outro político maranhense da sua geração, que a política contemporânea é cada vez mais uma disputa de imagens. E é justamente aí que surge outro elemento central do seu modelo administrativo.
A política da superfície.
Praças reformadas.
Avenidas recuperadas.
Pinturas novas.
Intervenções visualmente impactantes.
Tudo isso gera vídeos, fotografias e engajamento digital.
Mas instituições não rendem vídeos.
Planejamento não rende vídeos.
Licitações bem estruturadas não rendem vídeos.
Reorganização administrativa não rende vídeos.
Um sistema de transporte público eficiente não produz imagens tão atraentes quanto uma praça recém-inaugurada.
Uma rede de atenção básica funcionando adequadamente não gera o mesmo impacto que uma obra entregue com festa.
O resultado é uma inversão silenciosa das prioridades.
A cidade passa a ser governada para a imagem.
Não para a institucionalidade.
Talvez nenhum exemplo seja mais eloquente do que o transporte coletivo de São Luís. Há anos o sistema apresenta sinais evidentes de esgotamento estrutural. O problema ultrapassou governos, crises e greves. Ainda assim, a cidade segue sem uma solução definitiva capaz de reorganizar o setor em bases duradouras. E Braide deixou a prefeitura sem apresentar uma única ação efetiva para o setor, a não ser vouchers que deram uma graninha extra para motoristas e enriqueceram uma empresa estrangeira que não paga impostos.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado a outras áreas essenciais, como saúde, educação e políticas sociais permanentes.
São temas que exigem planejamento, pactuação institucional e capacidade de articulação.
Mas produzem poucos dividendos visuais.
E é justamente por isso que costumam perder espaço em administrações fortemente orientadas pela lógica da comunicação.
É aqui que o Maranhão reencontra a reflexão de Franklin Douglas.
Se a greve estudantil de 1979 expressava, com atraso, debates e transformações iniciados em 1968, talvez a eleição estadual de 2026 esteja refletindo, em escala local, um fenômeno político que ganhou força nacional em 2018.
Não se trata de afirmar que Eduardo Braide é Jair Bolsonaro.
A comparação seria simplista.
A questão relevante é outra.
Assim como Bolsonaro prosperou politicamente em um ambiente de desgaste das instituições nacionais, Braide prospera em um ambiente de crescente descrença nas instituições locais.
Em ambos os casos, a política deixa de ser apresentada como uma construção coletiva mediada por regras, organizações e processos.
Ela passa a ser apresentada como a capacidade extraordinária de um indivíduo.
E é justamente aí que reside o alerta de Levitsky e Ziblatt.
As democracias não começam a enfraquecer quando as instituições são destruídas.
Elas começam a enfraquecer quando a sociedade passa a acreditar que as instituições já não são necessárias. E que um novo salvador, sozinho, resolverá tudo.
Já vimos esse filme.
