Calvário de Duarte Jr. mostra que eleição começa na disputa por legenda

A semana que passou marcou o segundo momento mais decisivo da eleição de 2026. Com o final da janela eleitoral se aproximando e Eduardo Braide (PSD) decidindo por concorrer ao governo, uma correria frenética obrigou políticos a se posicionarem.

Se o voto do eleitor é a etapa final da eleição, a montagem partidária é o filtro que os caciques fazem antes que o eleitor seja convidado a escolher. É nessa fase que se define quem terá estrutura, legenda, abrigo, tempo, aliados e viabilidade. Ou seja: o eleitor não escolhe livremente, ele escolhe quem o sistema já decidiu previamente.

No Maranhão, essa disputa por espaço foi alucinante. Houve correria, reacomodação, cálculo planilhado e replanilhado dezenas de vezes e, em alguns casos, um nível de elasticidade ideológica que dispensa maiores explicações: teve gente trocando de partido cinco vezes em uma única semana.

O calvário de Duarte
Em pouco mais de uma semana, Duarte Júnior saiu do PSB, filiou-se ao União Brasil, foi rifado, tentou reaproximação com o PSB, não deu certo, articulou com o Podemos, sondou MDB, PV e Novo e desembarcou no Avante. Nas últimas horas para o fechamento da janela, ainda tentou, sem sucesso, abrigo no PSD do antigo adversário Eduardo Braide.

Uma via-crúcis partidária em plena Semana Santa.

O calvário de Duarte II
Ao contrário do que aliados tentam vender, Duarte Jr. não virou vítima do sistema, mas das próprias escolhas.

Uma semana antes de se filiar, chamou Ciro Nogueira, presidente do PP, um dos partidos da futura federação União Progressista, de “despachante de luxo”. No dia da filiação, teria sugerido que Antonio Rueda, presidente do União Brasil, ficasse fora da foto de filiação para não contaminar sua posição como vice-presidente da CPMI do INSS.

Pedro Lucas, presidente regional do União Brasil, não gostou.

Após a confirmação da federação entre PP e Progressistas, a classe política maranhense, com quem Duarte sempre manteve relação difícil, reagiu rapidamente: pré-candidatos a deputado federal deixaram o partido, e a deputada federal Amanda Gentil teria imposto um ultimato: ou ela, ou ele.

Escolheram ela.

Braide e Eliziane protagonizam
Ao contrário do que muitos imaginavam, o grande duelo do fim da janela partidária não se deu entre o agora ex-prefeito Eduardo Braide e o ainda governador Carlos Brandão.

Depois de se lançar candidato ao governo falando apenas de si, sem citar adversários nem aliados, Braide viu a senadora Eliziane Gama, um dos maiores ativos políticos do seu partido, deixar o PSD e migrar para o PT do presidente Lula.

Pesou na decisão de Eliziane a escolha do PSD de lançar o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, um nome identificado com a direita ruralista. Para uma senadora de perfil progressista, a permanência no partido se tornou inviável.

É aí que entra o cálculo de Lula. Ao perceber que Braide tenta construir uma candidatura solitária, apostando na vitrine do campo lulista sem um compromisso efetivo com a candidatura presidencial do petista, o presidente decidiu convidar Eliziane para o PT. Ela vinha sendo hostilizada nas últimas semanas pelo irmão do ex-prefeito.

O movimento não apenas reposiciona o jogo para o Senado, como impõe ao dinismo um recuo tático para reorganizar suas peças no tabuleiro em relação à candidatura para o governo. A Braide caberá, agora, o desafio de reconstruir pontes com o dinismo e com o PT, caso queira alcançar o voto dos eleitores progressistas, ainda majoritários no Maranhão.

A solidão da direita I
Enquanto esquerda e centro se redistribuíram, galgando para si a arrasadora maioria de partidos, a direita maranhense mais próxima ao bolsonarismo terminou a janela concentrada, sobretudo, no partido Novo.

O ex-senador Roberto Rocha, que havia conseguido o controle do PSDB e tentava manter influência sobre outras pequenas siglas, acabou tendo de se acomodar no mesmo partido de Lahesio Bonfim.

Lahesio, por sua vez, chega a este momento com um dilema claro. Com piso eleitoral relevante, mas teto baixo, vê-se entre dois caminhos: disputar o governo para preservar o eleitor mais identificado com o bolsonarismo e perder mais uma vez a eleição, ou buscar uma composição com Braide, que até aqui parece manter distância de nomes excessivamente associados à polarização nacional.

A solidão da direita II
Os demais nomes da direita bolsonarista preferiram manter distância de Lahesio Bonfim e Roberto Rocha e buscar aproximação, sobretudo, com partidos da base de apoio do governador Carlos Brandão.

O deputado estadual Yglésio, que disputará uma vaga na Câmara, optou pelo PRD, que projeta eleger, além dele, mais um deputado federal, Marreca Filho.

Já a deputada estadual Mical Damasceno, ligada à Assembleia de Deus, buscou espaço em diferentes partidos da órbita brandonista, mas terminou no Republicanos de Aluísio Mendes.

Em Imperatriz, a ex-candidata a prefeita Mariana escolheu o PL de Josimar de Maranhãozinho, cumprindo um acordo que já vinha sendo desenhado desde a eleição de 2024.

Confusão generalizada no Republicanos do Maranhão
Nas últimas horas para o final da janela eleitoral, o Republicanos se meteu em diferentes focos de crise.

Na tentativa de reforçar a chapa de deputado federal e, ao mesmo tempo, cumprir a cota feminina, o partido de Aluísio Mendes redesenhou sua estratégia e buscou atrair nomes com peso político e estrutura familiar. A operação incluiu Neto Evangelista e a esposa, a vereadora Thay, com a ideia de lançá-la para federal e ele para estadual. Movimento semelhante foi feito com o ex-prefeito Edivaldo, que disputará vaga de deputado estadual, e com a esposa, Camila, filiada para a disputa federal.

Com Edivaldo, a acomodação ocorreu sem sobressaltos. Com Neto, não. A filiação acabou não sendo efetivada pelo partido, embora tenha sido divulgada pela imprensa com base em registro na Justiça Eleitoral. Pressionado internamente, Neto deixou a operação e terminou no MDB, pelo qual disputará uma cadeira na Assembleia Legislativa.

No sábado, o Republicanos voltou ao noticiário com a informação de que o presidente da legenda, deputado federal Aluísio Mendes, teria procurado Iracema para recalibrar sua permanência na base do governo após o movimento de Eduardo Braide, que inflacionou o passe de parte da classe política. A versão foi negada. Nos bastidores, porém, o que se diz muito claramente é que a fatura para o Republicanos seguir aliado ficou mais alta.

Família Gentil muda a rota
Em meio a investigações da Polícia Federal sobre nomes do entorno político-familiar do ex-prefeito de Caxias, Fábio Gentil, e ao processo que pode levar à cassação do mandato do prefeito Gentil Neto, o grupo decidiu redesenhar seus movimentos eleitorais.

Fábio Gentil deixou o cargo de secretário no governo Carlos Brandão e passou a reavaliar qual posição disputará em 2026. Primeiro, ele tentou a primeira suplência de André Fufuca para o Senado; com a perda de tração dessa hipótese e a preferência por Pedro Lucas no grupo do governador, buscou se reposicionar na órbita de Weverton Rocha (PDT).

Agora, com o processo de cassação do prefeito no horizonte e a possibilidade de eleição suplementar em Caxias, o ex-prefeito passou a considerar uma troca de papéis dentro da própria família: ele disputaria uma vaga de deputado federal no lugar da filha Amanda Gentil, que poderia ser deslocada para a disputa pela prefeitura.

Mudança de rota também na família Nagib
Outro grupo familiar que tenta se reorganizar em meio a questionamentos jurídicos é o do deputado estadual Francisco Nagib.

A esposa do deputado, Agnes, deixou o governo Brandão e, depois de idas e vindas por outras legendas, filiou-se ao PSDB. No desenho que passou a ser cogitado pelo grupo, é ela que pode disputar vaga de deputada estadual no lugar do marido.

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Sobre o autor

Lígia Teixeira

Historiadora por vocação e jornalista por missão. Atua há mais de 20 anos na comunicação política e institucional, com passagens por campanhas eleitorais, jornalismo impresso e digital, além de áreas estratégicas da comunicação na administração pública. Tem experiência em análise de cenário, formulação de discurso, articulação com a imprensa e com a sociedade, além da produção de conteúdo em cenários de alta complexidade. Escreve semanalmente, aos domingos.

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