MP diz que assessores de Felipe Camarão pagaram despesas do vice-governador, incluindo escola de enteada e hotel no Rio

COLUNA | DANIEL MORAES — 22/03/2026

Na petição em que requer o afastamento de Felipe Camarão (PT), por suspeita de envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro, o procurador-geral de Justiça do estado, Danilo José de Castro Ferreira, afirma que despesas pessoais do vice-governador foram pagas por assessores, incluindo mensalidades escolares de uma enteada, hospedagem em hotel de alto padrão no Rio de Janeiro e contribuições previdenciárias.

Um dos assessores citados na petição é Maciel Pereira Lima, que, segundo dados do Portal da Transparência, ocupava até 2025 o cargo de assessor especial do vice-governador, com remuneração mensal de R$ 4.796,66.

De acordo com o procurador-geral de Justiça, na petição à qual o Observador Maranhense teve acesso, Maciel Pereira Lima quitou a anuidade escolar referente ao ano letivo de 2022 da escola de uma enteada de Felipe Camarão, à época secretário de Educação, no valor de R$ 21.363,98, por meio de depósito em conta corrente em dinheiro. O documento inclui comprovantes de quitação e registros de envio desses arquivos à instituição de ensino a partir de e-mail associado a Felipe Camarão.

Comprovante da quitação da anuidade escolar de 2022 de uma enteada de Camarão, paga por assessor. Foto: MPMA.

O relatório também aponta que Maciel Pereira Lima creditou R$ 355.313,28 a Felipe Camarão, em 23 operações, incluindo transferências, PIX e depósitos em espécie. Segundo o documento, parte dessas movimentações ocorreu por meio de depósitos em dinheiro, apontados como mecanismo para dificultar o rastreamento da origem dos recursos.

Outro assessor citado na petição, identificado como Thiago Brasil Arruda, tenente-coronel da Polícia Militar cedido ao gabinete militar da Secretaria de Estado de Governo, é apontado pelo procurador-geral de Justiça como “operador financeiro a serviço do vice-governador”. Segundo o documento, ele pagou as diárias de hospedagem do vice-governador no Rio de Janeiro, referentes ao período de 16 a 20 de agosto de 2024, no valor de R$ 23.046,78, por meio de um PIX no valor integral, realizado diretamente na conta do hotel.

Além disso, o documento descreve que o tenente-coronel Thiago Brasil Arruda também pagou tributos federais (DARFs) vinculados ao vice-governador, com base em comprovantes obtidos após a quebra de sigilo telemático.

Para o procurador-geral, os episódios indicam que despesas pessoais de Felipe Camarão foram custeadas por terceiros, em um padrão que, segundo o Ministério Público, se soma às movimentações financeiras investigadas.

O documento sustenta que esse conjunto de elementos reforça o pedido de afastamento. Segundo a petição, a permanência do vice-governador no cargo pode comprometer a apuração, ao permitir interferência na coleta de provas e eventual ocultação de registros financeiros. O pedido de afastamento foi encaminhado ao TJ, que ainda não decidiu se irá acolhê-lo.

Procurado pela coluna, Felipe Camarão não respondeu. Pelas redes sociais, o vice-governador afirmou que recebeu “com indignação” o que classificou como um “vazamento criminoso” e disse que o caso representa um “faroeste político”. Na mesma manifestação, levantou suspeitas sobre a relação entre o procurador-geral de Justiça e Marcus Brandão, irmão do governador Carlos Brandão, e indicou possível interferência política no episódio.

Íntegra da manifestação do vice-governador

“Recebo com indignação o vazamento criminoso de suposto pedido de afastamento do meu mandato, fundado em processo sigiloso ao qual jamais tive acesso ou ciência. Trata-se de uso indevido de dados protegidos, com clara finalidade de exposição seletiva e constrangimento público.

O que está em curso não é investigação legítima, mas vazamento direcionado com objetivo eleitoreiro, à margem da legalidade.

Causa ainda mais estranheza a proximidade entre o Procurador-Geral de Justiça e o Sr. Marcus Brandão, irmão do Governador, relação que precisa ser esclarecida à sociedade.

Para investigar possível aparelhamento de um órgão respeitável como a Procuradoria-Geral de Justiça, entrei com as medidas judiciais cabíveis. A sociedade maranhense exige respostas sobre a condução de casos sensíveis, sobre eventuais vínculos políticos incompatíveis com a independência funcional e sobre fatos maculam a confiança interna do próprio Ministério Público.

Diante da gravidade dos fatos, levarei o caso ao Conselho Nacional do Ministério Público. Confio na Justiça e não aceitarei perseguição política travestida de atuação institucional.

Minha trajetória pública ilibada de mais de 25 anos não será manchada por esse tipo de prática. O Maranhão não pode retroceder a um tempo em que instituições eram aparelhadas para fins de pressão política.”

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Sobre o autor

Daniel Moraes

Jornalista, fundador e editor-chefe do jornal digital O Observador Maranhense.

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