Um tenente-coronel da Polícia Militar do Maranhão atuava como operador financeiro de um “caixa dois” destinado a abastecer o vice-governador Felipe Camarão (PT). É o que sustenta o procurador-geral de Justiça do estado, Danilo José de Castro Ferreira, na petição enviada ao Tribunal de Justiça em que requer o afastamento do vice-governador.
De acordo com o documento, ao qual o Observador Maranhense teve acesso, o agente utilizava contas bancárias próprias para receber valores, fragmentá-los e redistribuí-los, direta e indiretamente, em benefício do vice-governador.
A investigação aponta que, de janeiro de 2022 a outubro de 2025, o policial movimentou cerca de R$ 9,6 milhões, valor considerado incompatível com sua renda formal.
Segundo o Ministério Público, o agente declarou remuneração mensal de R$ 20.893,77, enquanto os créditos identificados em suas contas somaram mais de R$ 4,8 milhões, evidenciando uma discrepância significativa entre rendimentos e movimentação financeira.
O documento aponta ainda a realização de transferências diretas ao vice-governador, além do uso de operações variadas, como transferências bancárias, PIX e depósitos em dinheiro.
Segundo o MP, a dinâmica envolvia o uso de técnicas de fragmentação de valores — conhecidas como “smurfing” — com o objetivo de dificultar o rastreamento das operações.
A petição indica que mais de R$ 1 milhão foi movimentado em dinheiro vivo de forma fracionada, estratégia que, de acordo com o órgão, visava escapar dos mecanismos de controle financeiro.
Para o procurador-geral, os elementos reunidos indicam a existência de uma rede estruturada de circulação de recursos, com uso de terceiros — os chamados “laranjas” — e de mecanismos voltados à fragmentação e redistribuição de valores, destinada a viabilizar o fluxo financeiro investigado.
O procurador-geral sustenta ainda que o afastamento do vice-governador é necessário para evitar interferências na investigação. Segundo a petição, a permanência de Felipe Camarão no cargo “representa risco concreto à apuração, ao permitir influência sobre servidores e testemunhas, além da possibilidade de ocultação, alteração ou supressão de documentos e registros financeiros ligados ao caso.”
O pedido de afastamento foi encaminhado ao TJ, que ainda não decidiu se irá acolhê-lo.
Procurado pela reportagem, Felipe Camarão não respondeu. Pelas redes sociais, o vice-governador afirmou que recebeu “com indignação” o que classificou como um “vazamento criminoso” e disse que o caso representa um “faroeste político”. Na mesma manifestação, levantou suspeitas sobre a relação entre o procurador-geral de Justiça e Marcus Brandão, irmão do governador Carlos Brandão, e indicou possível interferência política no episódio.
Íntegra da manifestação do vice-governador
“Recebo com indignação o vazamento criminoso de suposto pedido de afastamento do meu mandato, fundado em processo sigiloso ao qual jamais tive acesso ou ciência. Trata-se de uso indevido de dados protegidos, com clara finalidade de exposição seletiva e constrangimento público.
O que está em curso não é investigação legítima, mas vazamento direcionado com objetivo eleitoreiro, à margem da legalidade.
Causa ainda mais estranheza a proximidade entre o Procurador-Geral de Justiça e o Sr. Marcus Brandão, irmão do Governador, relação que precisa ser esclarecida à sociedade.
Para investigar possível aparelhamento de um órgão respeitável como a Procuradoria-Geral de Justiça, entrei com as medidas judiciais cabíveis. A sociedade maranhense exige respostas sobre a condução de casos sensíveis, sobre eventuais vínculos políticos incompatíveis com a independência funcional e sobre fatos maculam a confiança interna do próprio Ministério Público.
Diante da gravidade dos fatos, levarei o caso ao Conselho Nacional do Ministério Público. Confio na Justiça e não aceitarei perseguição política travestida de atuação institucional.
Minha trajetória pública ilibada de mais de 25 anos não será manchada por esse tipo de prática. O Maranhão não pode retroceder a um tempo em que instituições eram aparelhadas para fins de pressão política.”
