Não importa quem ganhe a eleição. A grande vencedora é a Meta.

Lígia Teixeira
COLUNA Lígia Teixeira Historiadora por vocação e jornalista por missão. Atua há mais de 20 anos na comunicação política e institucional, com passagens por campanhas eleitorais, jornalismo impresso e digital, além de áreas estratégicas da comunicação na administração pública. Tem experiência em análise de cenário, formulação de discurso, articulação com a imprensa e com a sociedade, além da produção de conteúdo em cenários de alta complexidade. Escreve semanalmente, aos domingos. Historiadora por vocação e jornalista por missão. Atua há mais de 20 anos na comunicação política e institucional, com passagens por campanhas eleitorais, jornalismo impresso e digital, além de áreas estratégicas da comunicação na administração pública. Tem experiência em análise de cenário, formulação de discurso, articulação com a imprensa e com a sociedade, além da produção de conteúdo em cenários de alta complexidade. Escreve semanalmente, aos domingos.
ANÁLISE

Em 5 de novembro de 2024, Donald Trump venceu as eleições presidenciais nos Estados Unidos. Pouco depois, o Brasil se transformaria, na leitura de seus críticos, numa espécie de laboratório de apoio ao extremismo da direita de raiz trumpista. Em 7 de janeiro de 2025, a Meta anunciou mudanças nas regras de moderação de conteúdo de suas plataformas, inicialmente nos Estados Unidos. Uma semana depois, em 14 de janeiro, um vídeo do deputado Nikolas Ferreira sobre o Pix ultrapassou, segundo números divulgados à época, 300 milhões de visualizações no Instagram, com alcance superior à audiência da final da Copa do Mundo.

O episódio despertou questionamentos sobre uma possível amplificação seletiva pelos algoritmos da Meta, sem que tenha sido comprovada qualquer interferência deliberada da empresa.

Na manhã de 20 de janeiro de 2025, Donald Trump tomou posse como presidente dos Estados Unidos. Na primeira fila estavam os grandes donos dos algoritmos da internet: Mark Zuckerberg, da Meta; Jeff Bezos, da Amazon; Sundar Pichai, do Google; e Elon Musk, dono do X. Todos sorridentes, aplaudindo com entusiasmo a volta de Trump à Casa Branca. Musk foi além dos aplausos. Assumiu uma posição estratégica no governo, à frente do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), cuja atuação abriu acesso a sistemas e dados sensíveis dos americanos. Meses depois, após supostos desentendimentos públicos com Trump, deixou o governo levando consigo informações preciosas.

O laboratório de manipulação da Meta no vídeo de Nikolas Ferreira mostrou-se bem-sucedido na prática. Dados parciais das prestações de contas eleitorais mostram que recursos do fundo eleitoral com impulsionamento digital ultrapassou R$ 378 milhões, dos quais pelo menos R$ 288,7 milhões foram destinados diretamente à Meta, mais que o dobro do valor registrado em 2022. O PL de Nikolas liderou os gastos partidários com a empresa, com R$ 63,7 milhões. Uma fortuna alimentada com dinheiro público. Meu e seu.

Mas o maior problema não está nas cifras. Está na transformação da própria representação política. Influenciadores digitais, tanto à direita quanto à esquerda, foram eleitos com pouquíssima ou nenhuma trajetória partidária, enraizamento eleitoral e compromisso com a construção de agendas públicas. Eles foram eleitos fazendo dancinha, gritando palavras de ordem contra banheiros para pessoas trans ou pedindo alguma coisa irrelevante. Pela primeira vez, o Brasil elegeu representantes políticos pautados pela hiperdespolitização programada por algoritmos.

O resultado é dramático. A composição do Congresso Nacional suscita preocupações sobre o fortalecimento da extrema-direita e o espaço reservado à política convencional, inclusive demolindo bancadas organizadas em torno de interesses religiosos e do agronegócio, controladas pelo Centrão.

Caso Flávio Bolsonaro vença a eleição, a relação entre o Executivo e um Congresso mais alinhado à direita poderá favorecer uma concentração de poder político jamais vista na democracia brasileira. A possibilidade de indicar quatro novos ministros ao Supremo Tribunal Federal, conforme as vagas que efetivamente surgirem durante seu mandato, ampliaria ainda mais a importância desse cenário.

Alterações profundas na Constituição estão no radar bolsonarista e já foram anunciadas. A preocupação se estende à política externa: uma eventual aproximação do governo brasileiro com a administração Trump também recolocaria em discussão os interesses das grandes plataformas digitais e os limites das concessões que o país estaria disposto a fazer. Flávio diz que fará todas, se necessário.

Em 2023, quando ocupava o Ministério da Justiça, Flávio Dino já chamava a atenção para uma face particularmente sombria desse universo. Investigações sobre ameaças e ataques a escolas revelavam a atuação de grupos em plataformas digitais, entre elas o Discord, com circulação de conteúdos violentos e estímulos à automutilação e ao suicídio.

Dino defendia uma regulamentação mais rigorosa das grandes empresas de tecnologia, responsabilizando-as pela atuação de suas plataformas. O ministro deixou o governo e assumiu uma cadeira no Supremo Tribunal Federal.

O debate sobre a regulação não desapareceu, mas perdeu espaço na disputa política cotidiana para uma curiosa convergência: à direita e à esquerda, multiplicam-se os candidatos e dirigentes que parecem convencidos de que, para sobreviver politicamente, é preciso primeiro conquistar a benevolência dos algoritmos.

Em vez de discutir os limites do poder das big techs, lideranças conservadoras e progressistas acham que devemos nos curvar a elas. E talvez esteja aí a questão mais perturbadora desta eleição: entregamos para empresas americanas o controle sobre as emoções dos eleitores, em vez de amadurecer o debate público em torno dos interesses nacionais. Nada de novo.

Os textos publicados na seção de colunas e artigos são de inteira responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, a posição editorial do O Observador Maranhense.
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Historiadora por vocação e jornalista por missão. Atua há mais de 20 anos na comunicação política e institucional, com passagens por campanhas eleitorais, jornalismo impresso e digital, além de áreas estratégicas da comunicação na administração pública. Tem experiência em análise de cenário, formulação de discurso, articulação com a imprensa e com a sociedade, além da produção de conteúdo em cenários de alta complexidade. Escreve semanalmente, aos domingos.

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