Há algo de profundamente incômodo no ambiente político maranhense às vésperas da eleição de 2026. Não apenas porque o estado se encaminha para uma disputa que pode redefinir a sucessão do grupo hoje no poder, seja com Eduardo Braide, Felipe Camarão ou Orleans Brandão, mas porque essa transição parece ocorrer sob uma atmosfera de ruído permanente, saturação discursiva e opacidade informacional que encarece enormemente a vida democrática.
O problema, a meu ver, não está apenas nas candidaturas nem exclusivamente nos arranjos das elites políticas, mas no ecossistema comunicacional por meio do qual o cidadão comum tenta entender o que está em jogo. O suspense em torno do próximo ciclo de liderança no Maranhão não se converteu em esclarecimento público; ao contrário, vem sendo frequentemente administrado por uma esfera comunicacional que transforma expectativa em intriga, conflito em espetáculo e informação em arma de facção.
Refiro-me ao esgotamento de um modelo de mediação política que se consolidou como circuito de assimetria e desinformação. Trata-se de pôr fim, em sentido figurado, a uma forma degradada de comunicação política para refundá-la em bases republicanas, democráticas e publicamente responsáveis. O que está em discussão, portanto, não é a liberdade de expressão, mas a qualidade da esfera pública e o direito do eleitor a uma informação inteligível, plural e socialmente útil (HABERMAS, 1984; MIGUEL, 2002; THOMPSON, 1998).
Habermas (1984) mostrou que a esfera pública depende da circulação de argumentos, da crítica e da possibilidade de formação racional da opinião. Gabriel Tarde (2005), por sua vez, já havia percebido que a conversação e a circulação social das ideias são dimensões constitutivas da vida política moderna. No campo brasileiro, Luís Felipe Miguel (2002) insistiu que a comunicação não é mero espelho da política, mas um recurso de poder, capaz de moldar agendas, enquadrar conflitos e distribuir visibilidade de maneira profundamente desigual. Em outras palavras, quem controla a mediação, em grande medida, condiciona também a própria experiência democrática (MIGUEL, 2002; THOMPSON, 1998; CASTELLS, 2003).
As transformações digitais não eliminaram esse problema; apenas o reorganizaram. Castells (2003) argumentou que a sociedade em rede alterou os fluxos de informação e as formas de articulação política. Recuero (2009) demonstrou que redes e blogosferas produzem novas dinâmicas de visibilidade, circulação e autoridade. Alex Primo (2008) e Howard Rheingold (1996) destacaram que a interatividade digital pode ampliar sociabilidades e participação.
Mas a literatura especializada sobre blogs políticos também é cautelosa: esses ambientes não são automaticamente horizontais, democráticos ou emancipatórios. Podem abrir espaço para novos atores, mas também podem reproduzir hierarquias, reforçar centralidades, naturalizar desigualdades e estimular formas regressivas de antagonismo (ALDÉ; ESCOBAR; CHAGAS, 2007; CARNEVALLI, 2008; TORRES, 2016).
A primeira razão, portanto, para “acabar” com a blogosfera política maranhense em seu formato atual é que ela empobrece a esfera pública. Refletindo, meditando e escavando sobre o assunto encontrei alguns trabalhos importantes, embora escassos, a respeito. Um dos melhores é a pesquisa de Carnevalli (2008) que mostra que a blogosfera política deve ser entendida como fenômeno comunicacional em disputa, e não como tecnologia espontaneamente democratizante.
Seu argumento sobre a “convergência de fluxos” é particularmente útil aqui: blogs, portais, imprensa e arenas políticas formam circuitos desiguais de circulação, nos quais a aparência de pluralidade muitas vezes esconde mimetismos e assimetrias de influência. No Maranhão, esse traço aparece com nitidez. O que frequentemente se apresenta como diversidade informativa funciona, na prática, como repetição de agendas, reiteração de versões e administração interessada da visibilidade. O resultado é uma esfera pública rarefeita, incapaz de organizar o dissenso em termos produtivos e inclinada a converter o debate em disputa de facções (CARNEVALLI, 2008; HABERMAS, 1984; TARDE, 2005).
A segunda razão que trago aqui é que esse ambiente eleva drasticamente o custo de informação para o cidadão. Em uma democracia de baixa densidade informacional, o eleitor já enfrenta obstáculos estruturais para compreender decisões públicas, trajetórias partidárias e efeitos concretos das políticas governamentais. Quando a mediação política é dominada por blogs e circuitos digitais fortemente personalistas, esse custo aumenta ainda mais.
Um segundo trabalho excelente sobre o assunto (coloquei as referências todas ao final) e que pode ser encontrada na internet é a dissertação de mestrado de Ricardo José Torres. Torres (2016) reconhece que mídias sociais podem ampliar temas e vozes, mas insiste que esse potencial depende de reconfigurações éticas e jornalísticas. Sem essas mediações, o ambiente digital produz não esclarecimento, mas sobrecarga, disputa de versões e dificuldade crescente de distinguir fato, interpretação, propaganda e manipulação.
No Maranhão, isso significa que o eleitor precisa decifrar interesses ocultos, filtrar enquadramentos enviesados e desconfiar continuamente da informação que recebe. Trata-se de um custo cognitivo e democrático altíssimo, sobretudo para os setores mais vulneráveis da população (TORRES, 2016; MIGUEL, 2002; THOMPSON, 1998).
A terceira razão é que a blogosfera política, tal como se estruturou, ajuda a reproduzir práticas patrimonialistas por meios atualizados. A literatura sobre comunicação política não usa necessariamente esse vocabulário para todos os casos, mas oferece instrumentos claros para identificá-lo. Quando a mediação pública se organiza por relações de proximidade com grupos de poder, quando a credibilidade depende menos de procedimentos jornalísticos do que de inserção em redes de influência, e quando a agenda pública é administrada por lealdades, favores e alinhamentos implícitos, o que temos é uma atualização digital de velhas assimetrias oligárquicas.
A blogosfera, nesse contexto, não democratiza o acesso à palavra; ela muitas vezes redistribui a velha lógica do mando em nova linguagem. O caso maranhense está repleto de exemplos de como se trata de uma esfera de pagamentos, chantagens e interesses subterrâneos que desprezam a informação como objetivo democrático e investem em uma guerra de proxy. A crítica de Aldé, Escobar e Chagas (2007) à limitada horizontalidade dos blogs políticos brasileiros é elucidativa: mesmo quando há participação e comentário, o blogueiro conserva poder de pauta, moderação e seleção.
Ou seja, a promessa de igualdade comunicativa convive com cortes hierárquicos persistentes. Em um estado marcado historicamente por desigualdades políticas, essa configuração tende a aprofundar, e não reduzir, a assimetria entre quem fala e quem apenas reage (ALDÉ; ESCOBAR; CHAGAS, 2007; RECUERO, 2009; MIGUEL, 2002).
A quarta razão que trago: a blogosfera maranhense frequentemente desinforma o eleitor sobre aquilo que realmente importa. Desinformação não é apenas falsidade factual. Ela também consiste em deslocar prioridades, obscurecer estruturas, hipertrofiar o acessório e reduzir a política a uma sucessão de episódios performáticos.
A contribuição de Aldé, Escobar e Chagas (2007) é decisiva nesse ponto, ao mostrarem que os blogs políticos são gêneros híbridos: situados entre a atualidade jornalística e a crônica pessoal. Essa hibridez, em si, não é um defeito. O problema começa quando ela se converte em álibi para substituir análise por insinuação, explicação por guerra de versões e interesse público por conveniência estratégica, tudo isso impulsionado por muito dinheiro.
O eleitor passa então a saber muito sobre intrigas palacianas, conflitos interpessoais e boatos táticos, mas pouco sobre orçamento, políticas sociais, serviços públicos, prioridades administrativas e mecanismos de responsabilização. Em vez de iluminar o essencial, a comunicação política passa a administrar distrações (ALDÉ; ESCOBAR; CHAGAS, 2007; THOMPSON, 2002; HOWLETT, 2000).
A quinta razão e última razão é que esse modelo bloqueia a renovação democrática de que o Maranhão precisará a partir de 2027. A eleição de 2026 marcará, inevitavelmente, um novo ciclo de liderança política no estado.
Isso ocorrerá seja com a vitória de Eduardo Braide, seja com a vitória de Felipe Camarão, ambos posicionados como alternativas ao atual arranjo de poder, seja com a vitória de Orleans Brandão, que, embora represente a continuidade, ainda aparece como liderança neófita no plano estadual mais amplo. Em qualquer desses cenários, a reconstrução da legitimidade política dependerá de uma nova relação entre governo, sociedade e informação pública.
Se o próximo ciclo mantiver a comunicação política subordinada à opacidade, ao personalismo e à lógica de facção, o estado seguirá combinando alta circulação de conteúdo com baixa inteligibilidade democrática. A literatura sobre esfera pública, mediação e redes sugere exatamente o contrário do que hoje prevalece: comunicação política saudável exige pluralidade, accountability, inteligibilidade e responsabilidade institucional.
Por isso, o que proponho é a refundação da comunicação política no Maranhão. O próximo governador deveria assumir, desde a campanha, um compromisso inequívoco com a transparência ativa dos dados públicos, com a profissionalização da comunicação estatal, com critérios republicanos para a publicidade institucional e com políticas permanentes de educação midiática.
Deveria também estimular uma ecologia informacional menos dependente de intermediários personalistas e mais ancorada em jornalismo profissional, comunicação pública de interesse coletivo e acesso territorializado à informação.
Nossos vizinhos (Piauí e Ceará) apostaram em portais de notícia que, muito longe de estarem isentos ou livres de influências, oferecem uma qualidade jornalística muito melhor, mais ampla e mais democrática do que testemunhamos no Maranhão com a guerra comunicacional de “copia e cola” de blogues comandados por incapazes.
Isso significa falar não apenas com as elites da capital, mas com os municípios do interior, as periferias urbanas, as comunidades invisibilizadas e o eleitor que hoje paga caro demais para entender o mínimo da política estadual. Refundar a comunicação política é reduzir o custo de informação, ampliar a autonomia cidadã e devolver racionalidade pública à disputa democrática.
No fundo, meu incômodo com 2026 nasce daí. O Maranhão está diante de uma transição política importante, mas continua aprisionado a um sistema de mediação que transforma informação em instrumento de guerra e comunicação em extensão da disputa por poder. Nenhuma democracia amadurece desse modo.
O que está em jogo não é apenas quem governará o estado no próximo ciclo, mas em que condições cognitivas, morais e institucionais a sociedade maranhense fará essa escolha. Se o eleitor seguir submetido a uma esfera pública degradada, o voto continuará sendo exercido sob neblina. E democracia sob neblina é democracia diminuída.
É por isso que, em sentido figurado, insisto: é preciso acabar com a blogosfera política que hoje existe no Maranhão para que, em seu lugar, possamos enfim começar a construir uma comunicação política à altura de uma sociedade democrática.
Referências
ALDÉ, Alessandra; ESCOBAR, Juliana; CHAGAS, Viktor. A febre dos blogs de política. Revista FAMECOS, Porto Alegre, n. 33, p. 29-40, 2007.
CARNEVALLI, Ady. Convergência de fluxos, mimetismo e (des)controle: uma netnografia da blogomídia política. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2008.
CASTELLS, Manuel. A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública: investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.
HOWLETT, Michael. Beyond legalism? Policy ideas, implementation styles and emulation-based convergence in Canadian and U.S. environmental policy. Journal of Public Policy, Cambridge, v. 20, n. 3, p. 305-329, 2000.
MIGUEL, Luís Felipe. Os meios de comunicação e a prática política. Lua Nova, São Paulo, n. 55-56, p. 155-184, 2002.
PRIMO, Alex. Interação mediada por computador: comunicação, cibercultura, cognição. Porto Alegre: Sulina, 2008.
RECUERO, Raquel. Redes sociais na internet. Porto Alegre: Sulina, 2009.
RHEINGOLD, Howard. A comunidade virtual. Lisboa: Gradiva, 1996.
TARDE, Gabriel. A opinião e as massas. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis: Vozes, 1998.
THOMPSON, John B. O escândalo político: poder e visibilidade na era da mídia. Petrópolis: Vozes, 2002.
TORRES, Ricardo José. Jornalismo político e mídias sociais: das restrições convencionadas às rupturas alternativas. Dissertação (Mestrado em Jornalismo) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2016.
