Caro eleitor, se você por acaso for progressista, tenho uma má notícia: se os teus candidatos continuarem apostando no velho jeito de contar histórias, eles perderão a eleição deste ano.
A estética narrativa da extrema-direita vai dominar o imaginário do eleitor nas eleições. Não é apenas uma questão de comunicação; é a maneira como a atenção, a emoção e a percepção estão sendo moldadas pelas redes sociais e pelas grandes plataformas digitais. Os algoritmos impõem imagens, ritmos e narrativas que seguem uma performance capaz de fixar símbolos, criar heróis e mobilizar emoções sem quase nenhuma reflexão racional.
No Maranhão, os pré-candidatos Eduardo Braide (PSD) e Duarte Júnior (Avante) já incorporaram essa estética de forma consciente.
Eles não se vendem como direita ou esquerda, afirmam independência, mas se tornaram produtos claros da extrema-direita, tanto na forma quanto no conteúdo. O perigo é maior do que o que representavam os coronéis tradicionais: não se trata mais de dominação pelo medo ou pelo poder financeiro, mas de um domínio alienante, que leva o eleitor a defender ideias e projetos contra seus próprios interesses, acreditando que está fazendo o melhor para si e para sua família.
É uma manipulação emocional e cognitiva tão sofisticada quanto silenciosa, capaz de criar fanatismo e fidelidade afetiva.
A seguir trago uma avaliação dos vídeos de lançamento das pré-candidaturas de ambos para que vocês tenham uma ideia da sofisticação narrativa produzida por ambos. Braide lançou sua pré-candidatura pouco antes do fim do prazo para desincompatibilização e depois de semanas gerando expectativa no eleitorado. Duarte, sem chances de vitória para deputado federal, uma vez que se filiou a um partido sem nominata, aproveitou a fragmentação da disputa no Senado para se lançar também em um ambiente artificialmente criado para gerar expectativa e atenção dos maranhenses.
Eduardo Braide e a estética tradicional bolsonarista
Em seu vídeo de lançamento de pré-candidatura, Braide adota uma estética de simplicidade e proximidade que dialoga diretamente com as transmissões improvisadas de Bolsonaro entre 2018 e 2022. A imagem é construída de propósito para parecer simples, sem recursos financeiros, quase casual, mas cuidadosamente preparada para transmitir autoridade e heroísmo individual. Não há aliados visíveis, não há grupos políticos, não há movimento coletivo. Ele aparece sozinho, como se fosse o salvador, o homem da transformação, o gestor capaz de resolver tudo sem precisar do diálogo democrático ou da pluralidade de ideias.
Visual: camisa branca, fundo neutro com mapa do Maranhão, com cenário minimalista lembra transmissões usadas por grupos como os talibãs, criando sensação de presença territorial, mas evitando qualquer sofisticação que pudesse distrair o espectador ou identificar exatamente onde ele está, criando sensação de onipresença e poder.
Discurso: centraliza-se em sua biografia e nas entregas concretas como prefeito de São Luís, destacando obras, serviços e resultados tangíveis. Cada frase reforça a ideia de que ele é o agente principal da mudança, o protagonista da transformação, sempre sozinho.
Ritmo e linguagem: frases longas e articuladas, com apelo emocional direto ao povo, transmitindo confiança e legitimidade. A narrativa emociona, mas esvazia o debate político, pois a complexidade, a negociação e o diálogo — elementos essenciais da democracia — são substituídos por relatos de feitos individuais.
Mobilização social: ele não convoca grupos específicos, movimentos sociais ou aliados, criando a impressão de que toda a mudança depende dele, sozinho.
Estratégia de expectativa: a divulgação da candidatura foi cuidadosamente construída para gerar suspense, insuflando mídia e eleitorado antes do anúncio oficial, criando atenção máxima sem necessidade de interações coletivas.
Essa estética, embora transmita proximidade e legitimidade, concentra o poder na figura do candidato e se mantém distante da experiência real dos mais pobres. O eleitor tradicional, acostumado a esse tipo de simplicidade performática, percebe autenticidade e autoridade, mas o efeito é alienante: a democracia, o debate e a construção coletiva são substituídos pela narrativa de que tudo depende do indivíduo, do gestor-solucionador. Ou seja: Braide sozinho pode tudo. Não precisa dos movimentos sociais, nem dos políticos, nem da sociedade em geral.
Duarte Júnior: neobolsonarismo performático
Duarte Júnior representa a face digital e moderna do bolsonarismo, fortemente inspirada em Pablo Marçal e Nikolas Ferreira. Sua estética privilegia performatividade, ritmo de escalada emocional e economia da atenção, centrando-se no heroísmo do candidato e na criação de imagens que capturam imediatamente o interesse. Ele se apresenta como protagonista de um movimento, gerando sensação de urgência e centralidade, enquanto mantém o conteúdo deliberadamente vago.
Duarte é uma ameaça sofisticada para os eleitores mais pobres porque atua sobre tragédias cognitivas estruturadas pela paralaxe cognitiva. Ele cria uma narrativa em que o eleitor sente que participa de um movimento heroico, mas essa percepção está desconectada das reais necessidades da população. O eleitor é induzido a aderir emocionalmente a um imaginário de mudança e urgência, enquanto o conteúdo político real permanece vago e descolado da prática cotidiana. Essa paralaxe não é apenas distorção de percepção, ela combina o hiato entre teoria e prática, a encenação de heroísmo e a construção de uma realidade imaginada que privilegia a performance do candidato sobre qualquer diálogo ou ação concreta. O resultado é uma narrativa intensa, aspiracional e emocional, que prende a atenção de forma vertiginosa nas redes sociais — exatamente como os cortes rápidos e a estética performática de Instagram e TikTok —, mantendo o eleitor apaixonado e engajado, mesmo que sem nenhum vínculo direto com experiências reais ou propostas substanciais.
No vídeo de pré-campanha:
Visual: close-up frontal, fundo escuro, iluminação dramática, roupa clara. Olhares intensos, cortes rápidos e efeitos de luz mantêm atenção e tensão constantes, reproduzindo a estética das redes sociais de alta performance.
Discurso: frases curtas, repetidas e declarativas, polarização genérica (“os poderosos tentaram me parar”), narrativa de independência e heroísmo. A sensação de movimento e ação substitui qualquer proposição concreta, criando engajamento emocional contínuo.
Mobilização social: foco em jovens, urbanos, aspiracionais e grupos sociais com os quais Duarte construiu proximidade ao longo da carreira. Ele conjuga identificação emocional com estímulo aspiracional: o eleitor quer “soluções para hoje, para agora”, e se conecta ao candidato como símbolo de mudança imediata.
Expectativa: pré-anúncio com imagens de estúdio, música dramática e ritmo performático que antecipam engajamento, explorando cortes vertiginosos e narrativa paralaxe própria de Instagram e TikTok.
Essa estética torna Duarte particularmente eficaz junto ao eleitor mais jovem e urbano, que consome informação de forma rápida e emocional nas redes sociais. Ele atua sobre a percepção e atenção de forma calculada, criando um imaginário heroico e aspiracional irresistível para quem já foi treinado pela estética de rede social.
Convergências e implicações
Braide e Duarte compartilham uma mesma matriz narrativa: ambos transformaram a centralidade do candidato em heroísmo individual e mobilização afetiva do eleitor, mas o que caracteriza esta nova forma de dominação é que ela não depende mais do medo, da coerção ou do controle econômico direto, como fazia o coronelismo de Sarney, que sustentou seu poder por décadas via máquina estatal e vínculos com elites centrais. Hoje, o eleitor acredita que participa de algo positivo, sente-se livre e protagonista, mas está submetido a uma escravidão ideológica sofisticada: uma narrativa que explora pobreza cognitiva, irracionalidade e vazio existencial, fazendo com que a adesão emocional ao candidato pareça uma escolha consciente, enquanto reforça a concentração de poder das elites econômicas e financeiras que sustentam a extrema-direita. É a mesma lógica de controle do coronelismo, mas invertida: a liberdade é ilusória, e o ato de votar se transforma em mecanismo de reforço dessa estrutura de poder.
O Desafio dos Progressistas frente à ascensão de Braide e Duarte
Braide e Duarte conseguiram, ao longo do tempo, se tornar candidatos profundamente conectados ao novo imaginário de rede social do eleitor. Braide se distanciou gradualmente da classe política, reconstruindo um vínculo direto com o eleitor e se apresentando como protagonista solitário da mudança. Duarte, após a derrota em 2024, entendeu que o eleitor não responde mais à mobilização feita com o apoio da classe política e, por ser malquisto dentro do próprio sistema partidário, teve mais facilidade em adotar um discurso vazio em termos de projeto político, mas extremamente eficaz em termos de engajamento e percepção do público.
Para os pré-candidatos progressistas ou para aqueles que ainda dependem de recursos tradicionais de campanha, como TV, listas de realizações e biografias detalhadas, o grande desafio é claro: como se adaptar a este novo contexto sem perder coerência, autenticidade ou conexão com seus próprios valores e trajetória?
Encontrar esse equilíbrio será decisivo para quem deseja ser competitivo em 2026. O problema é que grande parte da classe política, em especial a que é ligada à esquerda e ao Centro democrático, ainda não entendeu isso.
