O que a pesquisa AtlasIntel revela sobre o eleitor maranhense

ANÁLISE

Todo político profissional sabe que o mais importante em uma pesquisa eleitoral não são os números frios, que em geral servem apenas para irrigar bate-bocas nas redes sociais e na imprensa.

O que interessa mesmo, independentemente de quem esteja numericamente à frente, é como pensa o eleitor, aquilo que marqueteiros chamam de QUALI e que forma o alicerce na construção das estratégias de campanha.

O eleitor, como sabemos, não é uma massa homogênea e uniforme. Ao contrário! Em tempos de bolhas digitais, ele é cada vez mais refém de seu próprio habitat territorial, seja de gênero, econômico, etário ou educacional.

A pesquisa AtlasIntel, realizada entre os dias 8 e 13 de maio e divulgada na sexta-feira (15), oferece um raro painel detalhado do eleitor do Maranhão, mostrando fraturas regionais, religiosas, de classe. Sim, o Maranhão está fragmentado, dividido e profundamente desunido. Isso ajuda a explicar por que Braide se mantém teoricamente neutro. Se ele escolher abertamente um espectro ideológico para aderir, vai desagradar profundamente os demais. Espertamente, o ex-prefeito age como ator de centro-direita, agradando tanto o eleitorado cansado de disputas extremistas quanto o barulhento eleitor de direita, com forte protagonismo nas redes sociais.

Chamo atenção para Braide porque, até aqui, ele é o único que consegue transitar neste confuso e fragmentado território eleitoral do Maranhão. Quem, além dele, entender isso e souber se organizar para alcançar os corações dos eleitores terá muita vantagem na disputa. Por isso, acho importante destrinchar esse ambiente difuso sobre como pensam os nichos de eleitores maranhenses mais importantes.

Batalhas geracionais

A disputa estadual no Maranhão revela choques geracionais que ajudam a explicar por que Braide está em vantagem. Ele tem uma força absoluta entre os jovens de 16 a 24 anos (82,5%), um perfil de eleitor engajado e que mostra um desejo de mudança avassalador: 87,3% deles querem um governo diferente do atual, padrão consistente entre classes, gêneros e recorte racial.

Orleans tem melhor desempenho entre 25 e 34 anos (35,9%) e acima de 60 anos (28,6%), mas apenas 6,3% entre os jovens, algo curioso para o pré-candidato mais jovem, com 30 anos.

Camarão cresce junto com a faixa etária, alcançando 21,9% entre 45 e 59 anos e 21,1% entre os mais velhos, mas tem desempenho residual entre os jovens (3,8% e 2,9%), mostrando desencanto da juventude com a esquerda e alertando claramente: Felipe precisa atualizar imediatamente a linguagem, o discurso e a estética para alcançar eleitores influentes nas redes sociais.

Já Lahésio se destaca nas faixas intermediárias (35 a 59 anos), com baixa penetração entre os jovens (3,4%). O eleitorado bolsonarista tradicional está concentrado nos mais velhos, enquanto os jovens preferem alternativas com menos discurso polarizador e mais alinhadas a discursos de empreendedorismo e prosperidade.

A desigualdade econômica reflete o voto

O Maranhão é, sobretudo, um estado brutalmente desigual economicamente, e Braide aproveita esse critério para consolidar sua vantagem. Ele demonstra um predomínio transversal, com força avassaladora na classe média de R$ 2.000 a R$ 3.000 (64,8%), justamente onde o desejo de mudança é mais explosivo, já que 91,8% desses eleitores exigem uma gestão diferente da atual. Braide consegue falar com a base e o centro da pirâmide, capturando de forma consistente o cansaço social desses estratos.

Orleans Brandão, por sua vez, consolida-se como o candidato da elite, com desempenho de 48% entre os que ganham acima de R$ 10.000. Esse resultado não é curioso: como ele é um candidato do governo, que concentra apoio das elites financeiras como fornecedores, empresários com parcerias, o setor de empreendedores locais envolvidos em obras e ações do Estado, é natural que ele esteja à frente nesse eleitorado, que também faz parte do próprio núcleo social do candidato. No entanto, ele enfrenta um abismo na classe média intermediária (R$ 5.000 a R$ 10.000), onde cai para apenas 12%.

Esse isolamento no topo da pirâmide sugere que sua candidatura é vista como preservação do status quo, enquanto as faixas de renda que mais sentem as deficiências dos serviços públicos — como a criminalidade, apontada por 48,4% como maior problema — demonstram maior resistência ao seu nome.

Já Camarão apresenta um comportamento errático por renda, detendo 18,4% na base (até R$ 2.000), mas sofrendo um “apagão” quase total no estrato seguinte, minguando para apenas 3,2%, evidenciando um vácuo de comunicação com a classe média emergente e sinalizando que o discurso petista precisa urgentemente de uma ponte com quem busca ascensão econômica; ele precisa de uma narrativa que conecte os avanços sociais à dinâmica do mercado para não ficar restrito a nichos de baixa renda e ao funcionalismo.

Lahésio encontra seu refúgio no estrato médio-superior (R$ 5.000 a R$ 10.000), atingindo seu ápice de 19,2%, mas é virtualmente ignorado pelos mais ricos, com apenas 1,9%. Enquanto os estratos intermediários parecem seduzidos pelo discurso de ordem e oposição ao sistema, o topo da pirâmide prefere o pragmatismo, deixando a Lahésio o desafio de demonstrar que sua proposta de prosperidade é viável para o grande capital, indo além da retórica bolsonarista tradicional.

Batalhas espirituais

O recorte religioso adiciona uma camada de complexidade cultural à disputa no Maranhão, revelando que a fé é um dos divisores de águas mais nítidos no estado. Braide sustenta sua liderança ancorado em uma base sólida entre os católicos (52,2%) e apresenta dominância absoluta entre os que se declaram crentes sem religião (73,9%) ou agnósticos e ateus (55,3%). Esse desempenho sugere que seu perfil de gestor consegue dialogar com um eleitorado que prefere uma política menos marcada por denominações religiosas específicas.

Orleans Brandão, por outro lado, encontra no segmento evangélico seu maior reduto de força, liderando com 43,9% das intenções no cenário sem apoios. No entanto, esse é um terreno de instabilidade: quando os padrinhos políticos entram em cena, a associação de Lahésio ao ex-presidente Bolsonaro faz o candidato do Novo saltar de 12% para 21,4% entre os evangélicos, drenando votos especialmente de Braide, que recua dez pontos percentuais nesse grupo. Isso demonstra que o voto evangélico no Maranhão é altamente sensível à polarização nacional e a pautas de costumes.

O cenário é drasticamente diferente para Camarão, que enfrenta um verdadeiro “muro de Berlim” religioso: ele detém apenas 1,5% das intenções entre os evangélicos, e mesmo quando associado ao apoio de Lula, esse número sobe de forma residual para 2,2%. Esse dado reflete a resistência histórica desse segmento à esquerda no estado, onde Lula (33,1%) perde para Flávio Bolsonaro (51,6%) entre os evangélicos e envia um recado estratégico: Felipe precisa desmistificar urgentemente sua imagem junto às lideranças religiosas evangélicas e construir uma narrativa capaz de ultrapassar o conservadorismo denominacional para se tornar competitivo fora do eixo católico-progressista.

Abismos regionais

O mapa eleitoral do Maranhão na AtlasIntel revela abismos regionais que ajudam a explicar a complexidade da liderança de Eduardo Braide.

Na capital, Braide é quase uma unanimidade, com 82,2% das intenções de voto, transformando a cidade em um bunker de oposição ao governo estadual. Esse fenômeno é impulsionado por um sentimento de mudança avassalador de 85,8% na região metropolitana e por uma desaprovação recorde de 80% à gestão de Carlos Brandão em São Luís, indicando que o eleitorado da capital rompeu emocionalmente com o atual grupo político.

Em contrapartida, o Leste Maranhense surge como o principal bastião de resistência de Orleans Brandão, onde ele lidera numericamente com 39,1%, superando os 34,5% de Braide, mostrando maior fôlego da máquina estadual para transferir votos. O Centro Maranhense se consolida como o “porto seguro” governista, sendo a única região onde Carlos Brandão mantém aprovação sólida (65,1%), permitindo que Orleans permaneça competitivo com 35,6%. Para o herdeiro político do governador, o desafio é “furar a bolha” dessas regiões aliadas e evitar isolamento no interior.

Já o Sul e Oeste Maranhense configuram-se como territórios da fragmentação e maior desafio estratégico para Braide, que registra aqui seu piso eleitoral de 31,5%. A disputa é multifacetada: Felipe Camarão atinge seu ápice com 21,9% e Lahésio Bonfim mostra força orgânica com 21,5%. Com um desejo de mudança de 82,7% nesta área, o eleitorado busca alternativas, mas ainda não se convenceu de que Braide é o único caminho, abrindo espaço para que Camarão e Lahésio disputem o papel de “terceira via” influente.

Esse cenário força Felipe Camarão a buscar uma síntese regional que una o Leste ao Sul, enquanto Lahésio precisa provar que seu discurso de direita consegue migrar do extremo sul para o centro-norte do estado, evitando ser apenas um fenômeno geográfico isolado.

O que os indicadores de rejeição dizem sobre o sentimento do eleitorado maranhense?

Os indicadores de rejeição da pesquisa AtlasIntel funcionam como um termômetro do “teto” de cada candidatura, mostrando que o eleitorado maranhense está construindo muros altos em torno do atual grupo político e da polarização extremada. O dado mais contundente é a rejeição da família Brandão: o governador Carlos Brandão enfrenta 44,1% de eleitores que não votariam nele de jeito nenhum, seguido de perto por seu sobrinho e herdeiro político, Orleans Brandão, com 40,6%. Esses números, somados ao fato de que 64% desaprovam a gestão estadual e 77,1% exigem uma mudança de rumo, sinalizam que o governismo enfrenta uma crise de identidade e um esgotamento de modelo que vai além da simples preferência partidária.

No campo da polarização nacional, o Maranhão impõe um “teto de vidro” ao bolsonarismo. Jair Bolsonaro lidera o ranking de rejeição com 54,3%, e seu filho Flávio Bolsonaro aparece logo em seguida com 48,9%. Essa resistência massiva explica por que candidatos que se colam excessivamente à estética da direita tradicional, como Lahésio Bonfim, têm dificuldade de furar a bolha de seus 26,3% de rejeição para alcançar o eleitorado de centro. Em contrapartida, Lula mantém uma rejeição significativamente menor (28,4%), o que o posiciona ainda como o principal cabo eleitoral do estado, embora essa força não esteja sendo transferida automaticamente para os aliados locais devido à alta desaprovação do governo estadual.

O grande beneficiário dessa arquitetura de sentimentos é Eduardo Braide, cuja maior vantagem competitiva não é apenas sua intenção de voto, mas sua rejeição residual de apenas 13,1%. Enquanto seus adversários diretos precisam gastar energia para “desconstruir” muros de resistência que superam os 40%, Braide caminha em campo aberto, possuindo o maior potencial de crescimento e de diálogo transversal entre diferentes classes e religiões. Para o eleitor, a baixa rejeição de Braide, combinada com sua imagem positiva de 67%, sugere que ele é visto como uma “ponte” segura para o desejo de mudança, uma alternativa que parece menos ruidosa e mais focada em gestão do que na guerra ideológica que satura os demais nomes.

Guerra dos sexos

O recorte de gênero na pesquisa AtlasIntel revela uma divisão nítida na velocidade do desejo de ruptura política no Maranhão, estabelecendo o eleitorado feminino como o principal amortecedor da crise do governismo, enquanto os homens lideram a marcha pela mudança. Eduardo Braide demonstra uma resiliência transversal rara, mantendo equilíbrio quase perfeito entre os sexos: possui 51,3% das intenções de voto entre os homens e 50% entre as mulheres. Esse dado consolida Braide como uma liderança que consegue neutralizar a polarização de gênero, sendo percebido de forma estável por ambos os públicos.

O contraste mais dramático aparece em Orleans Brandão, que encontra no público feminino seu porto seguro. Orleans registra 29,5% entre as mulheres, quase o dobro do desempenho entre os homens, onde marca 15,6%. Esse fenômeno está diretamente ligado à avaliação do atual governador, Carlos Brandão, que possui aprovação de 38% entre as mulheres, contra apenas 24,6% entre os homens. Enquanto 72,3% dos homens desaprovam a gestão estadual, esse número cai para 56% no público feminino. Fica claro que a narrativa de continuidade e a máquina estadual possuem eco mais profundo e rejeição menor entre as eleitoras maranhenses.

Na outra ponta, Camarão e Lahésio enfrentam o desafio inverso: são candidaturas de predomínio masculino. Camarão atinge 18,1% entre os homens, mas míngua para 10,1% entre as mulheres; já Lahésio tem 11,6% no público masculino e apenas 5,4% no feminino. Esses números revelam que as propostas de oposição mais enfáticas ou ideológicas têm dificuldade de furar a barreira do eleitorado feminino, que se mostra mais cauteloso.

O indicador qualitativo que explica essa dinâmica é o desejo de mudança, significativamente mais impaciente entre os homens: 84,9% deles exigem um governo diferente do atual, enquanto entre as mulheres esse índice é de 70,4%. Assim, Orleans Brandão sobrevive politicamente graças ao “voto de cautela” feminino, enquanto a oposição ganha tração na “fome de mudança” masculina. Para Camarão e Lahésio, o diagnóstico é de urgência: ambos precisam suavizar suas imagens e direcionar políticas públicas específicas para o público feminino se quiserem deixar de ser fenômenos majoritariamente masculinos e ameaçar a estabilidade de Braide.

O eleitor maranhense tem dores e urgências locais

O que amarra todo esse cenário a favor de Braide são os problemas que tiram o sono do maranhense. Criminalidade (48,4%) e acesso à saúde (45,6%) superam até mesmo a preocupação com a pobreza (37,7%). O fato de Braide liderar a confiança justamente nessas áreas, enquanto o atual governo sofre suas maiores taxas de desaprovação na capital e no Centro Maranhense, indica que a eleição de 2026 tende a ser decidida pelo voto do pragmatismo e da segurança pública.

O eleitorado envia um recado claro: aprova Lula para o Brasil, mas, no Maranhão, demonstra forte desgaste com o modelo estadual atual e busca um perfil de gestor capaz de entregar serviços básicos com maior sensação de eficiência administrativa.

Os textos publicados na seção de colunas e artigos são de inteira responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, a posição editorial do O Observador Maranhense.
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Sobre o autor

Lígia Teixeira

Historiadora por vocação e jornalista por missão. Atua há mais de 20 anos na comunicação política e institucional, com passagens por campanhas eleitorais, jornalismo impresso e digital, além de áreas estratégicas da comunicação na administração pública. Tem experiência em análise de cenário, formulação de discurso, articulação com a imprensa e com a sociedade, além da produção de conteúdo em cenários de alta complexidade. Escreve semanalmente, aos domingos.

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