Enquanto escrevo este texto, vejo na TV multidões aglomeradas em cidades americanas como Nova York, Los Angeles, Boston e Chicago. Os americanos receberam de Trump a promessa de mais prosperidade e protagonismo global, mas vivem, na prática, uma guerra interna sangrenta contra imigrantes; um conflito imprevisível contra o Irã; e uma geopolítica extremamente agressiva e caótica, que apenas fortalece os principais adversários dos Estados Unidos: China e Rússia.
Em resumo, o Império americano está ruindo e, junto com ele, a ilusão que o Ocidente alimentou desde o pós-Segunda Guerra: a de que o Estado Democrático de Direito levaria prosperidade lenta e gradual para todos.
E o que o prefeito de São Luís, Eduardo Braide, e os vouchers de aplicativo que ele distribui sempre que há uma greve de transporte urbano têm a ver com isso?
Braide faz pesquisas qualitativas o tempo todo, ele mede a mentalidade do eleitorado até no nível de bairro. E, o mais importante: Braide sabe ler as pesquisas qualitativas que faz. Ele entendeu, antes de quase todos os políticos do Maranhão, que o imaginário do estado aderiu, com alguns anos de atraso, ao grande desastre cognitivo que o Brasil passou a viver a partir das eleições de 2018.
O prefeito descobriu uma mudança de inflexão na percepção popular. O povo maranhense parou de acreditar nos cânones tradicionais da democracia, quais sejam: igualdade de oportunidades, harmonia entre os poderes, justiça social, soberania, legalidade etc.
No lugar disso tudo entrou o desejo imediato de prosperidade material, ressentimento com a classe política tradicional, exaustão com as promessas baseadas em programas sociais e assistencialismo e uma mágoa profunda, especialmente da classe média, com o único movimento político estadual que defendia a soberania dos pobres: o dinismo.
Eleito para a prefeitura em 2020, graças a uma quádrupla e traumática fratura do dinismo, Braide construiu uma engenhosa e, sobretudo, silenciosa estratégia daquilo que publicitários chamam de rebranding.
Se afastou, em público, dos políticos, parou de dar atenção à imprensa tradicional, tirou poderes de secretarias municipais e promoveu uma conexão direta com a população por meio de duas frentes: cooptação massiva de pequenas lideranças de bairro e estratégia agressiva de populismo digital.
Braide aprendeu a controlar uma estratégia que, até então, tinha sido organicamente construída por Duarte Jr., seu principal adversário nas duas últimas eleições municipais. Mas, sabe-se lá por que, Duarte deixou de ser um político com forte conexão popular e se aproximou da classe política que nunca confiou nele, enquanto Braide seguiu o caminho inverso e, apesar de ser um político tradicional nato, com sobrenome e métodos oligárquicos, a população passou a ver nele um gestor ousado e independente.
O que estou querendo dizer é que, no frigir dos ovos, o que sustenta a popularidade de Braide não é apenas a capacidade de fazer obras ou a performance de influenciador digital no Instagram.
Braide se afastou de todas as instituições que, no imaginário popular, não servem mais nos dias de hoje.
Braide não respeita o planejamento orçamentário que a própria prefeitura encaminha para votação na Câmara, ele subverte a execução orçamentária com suplementações que obedecem apenas ao calor do momento. Ele olha as métricas de Instagram e as pesquisas qualitativas sobre o sentimento popular e decide, sem planejamento algum, qual será a obra ou ação a ser priorizada.
Braide não se importa em prestar contas junto à imprensa, não apenas porque sabe que tanto a imprensa tradicional quanto os blogs regionais estão desgastados, mas, sobretudo, porque é muito mais fácil para ele controlar as narrativas em contato direto com a população do que ter que gastar energia respondendo a perguntas inconvenientes.
Braide finge não ter vínculos com políticos tradicionais porque sabe que a população foi capturada por uma mentalidade que nega a política como instrumento de organização da sociedade.
Braide ignora políticas sociais, tendo abandonado saúde, educação, transporte e programas sociais, porque sabe que o bolsonarismo e a disseminação de influenciadores digitais milionários espalharam uma mentalidade coletiva predatória que despreza pessoas e venera coisas.
E, por fim, a genialidade maior: o voucher de aplicativo.
Apesar de ser um benefício pontual e momentâneo, o voucher personifica o maior delírio coletivo do século XXI, o delírio da prosperidade instantânea, já devidamente instalado na mente das pessoas em função da ilusão do enriquecimento rápido, representado pela pandemia de bets e do tigrinho.
Quando o indivíduo é escravizado por um trabalho mal pago e extenuante, dependente, ainda por cima, de um ônibus caro, velho e perigoso para se deslocar, e, num passe de mágica, passa a ter acesso a um carro que o levará de forma rápida, confortável, segura, na porta do seu trabalho ou faculdade, ele revive o sonho da Cinderela. Deixa de ser um ser invisível, humilhado e exausto, para ser uma pessoa digna de uma vida confortável e com acesso a um bem muito desejado na capital maranhense: o veículo.
O prazer de estar em um carro com ar-condicionado, sentado no banco de trás, com um motorista particular e poder sair de casa mais tarde, garante algo muito maior do que a sensação de bem-estar: oferece acesso, oferece diferenciação, oferece dignidade.
E, ainda que momentâneo, o voucher oferece a sensação de prosperidade individual hoje, aqui e agora.
Enquanto isso, “brandonistas” e “camaronistas” seguem com macro-narrativas de que a democracia e o campo progressista vão melhorar a vida das pessoas aos poucos, com estabilidade, políticas públicas, proteção social e algum avanço gradual.
Ninguém quer mais saber disso. A classe média não deu a mínima para a isenção de IR do Lula, que garante alguns trocados a mais na conta. Os pobres não se importam com um vale-gás no fim do mês. O que eles querem é conforto, riqueza e distinção, ainda que ilusória.
E ainda tem a figura do motorista de aplicativo, maior beneficiado com a política de voucher. Esse, que já era um “braidista” engajado por conta das muitas obras de asfalto na cidade, passou a ser o maior e mais apaixonado cabo eleitoral do prefeito. É ele quem espalha, para os moradores do interior que chegam à cidade, as maravilhas da gestão Braide; é ele quem fortalece, no imaginário local, a ideia de que Braide é moderno e diferente de tudo que está aí.
Em um planeta apocalíptico, devastado por crises climáticas, hiperconcentração de renda, inteligências artificiais substituindo seres humanos e guerras digitais e militares imprevisíveis, Braide entendeu que o que importa é a aparência da felicidade momentânea, não a construção gradual da felicidade possível. Afinal, o mundo está acabando!
