Em um mundo que está acabando, o voucher de Braide é a promessa de felicidade hoje

Lígia Teixeira
COLUNA Lígia Teixeira Historiadora por vocação e jornalista por missão. Atua há mais de 20 anos na comunicação política e institucional, com passagens por campanhas eleitorais, jornalismo impresso e digital, além de áreas estratégicas da comunicação na administração pública. Tem experiência em análise de cenário, formulação de discurso, articulação com a imprensa e com a sociedade, além da produção de conteúdo em cenários de alta complexidade. Escreve semanalmente, aos domingos. Historiadora por vocação e jornalista por missão. Atua há mais de 20 anos na comunicação política e institucional, com passagens por campanhas eleitorais, jornalismo impresso e digital, além de áreas estratégicas da comunicação na administração pública. Tem experiência em análise de cenário, formulação de discurso, articulação com a imprensa e com a sociedade, além da produção de conteúdo em cenários de alta complexidade. Escreve semanalmente, aos domingos.
OPINIÃO

Enquanto escrevo este texto, vejo na TV multidões aglomeradas em cidades americanas como Nova York, Los Angeles, Boston e Chicago. Os americanos receberam de Trump a promessa de mais prosperidade e protagonismo global, mas vivem, na prática, uma guerra interna sangrenta contra imigrantes; um conflito imprevisível contra o Irã; e uma geopolítica extremamente agressiva e caótica, que apenas fortalece os principais adversários dos Estados Unidos: China e Rússia.

Em resumo, o Império americano está ruindo e, junto com ele, a ilusão que o Ocidente alimentou desde o pós-Segunda Guerra: a de que o Estado Democrático de Direito levaria prosperidade lenta e gradual para todos.

E o que o prefeito de São Luís, Eduardo Braide, e os vouchers de aplicativo que ele distribui sempre que há uma greve de transporte urbano têm a ver com isso?

Braide faz pesquisas qualitativas o tempo todo, ele mede a mentalidade do eleitorado até no nível de bairro. E, o mais importante: Braide sabe ler as pesquisas qualitativas que faz. Ele entendeu, antes de quase todos os políticos do Maranhão, que o imaginário do estado aderiu, com alguns anos de atraso, ao grande desastre cognitivo que o Brasil passou a viver a partir das eleições de 2018.

O prefeito descobriu uma mudança de inflexão na percepção popular. O povo maranhense parou de acreditar nos cânones tradicionais da democracia, quais sejam: igualdade de oportunidades, harmonia entre os poderes, justiça social, soberania, legalidade etc.

No lugar disso tudo entrou o desejo imediato de prosperidade material, ressentimento com a classe política tradicional, exaustão com as promessas baseadas em programas sociais e assistencialismo e uma mágoa profunda, especialmente da classe média, com o único movimento político estadual que defendia a soberania dos pobres: o dinismo.

Eleito para a prefeitura em 2020, graças a uma quádrupla e traumática fratura do dinismo, Braide construiu uma engenhosa e, sobretudo, silenciosa estratégia daquilo que publicitários chamam de rebranding.

Se afastou, em público, dos políticos, parou de dar atenção à imprensa tradicional, tirou poderes de secretarias municipais e promoveu uma conexão direta com a população por meio de duas frentes: cooptação massiva de pequenas lideranças de bairro e estratégia agressiva de populismo digital.

Braide aprendeu a controlar uma estratégia que, até então, tinha sido organicamente construída por Duarte Jr., seu principal adversário nas duas últimas eleições municipais. Mas, sabe-se lá por que, Duarte deixou de ser um político com forte conexão popular e se aproximou da classe política que nunca confiou nele, enquanto Braide seguiu o caminho inverso e, apesar de ser um político tradicional nato, com sobrenome e métodos oligárquicos, a população passou a ver nele um gestor ousado e independente.

O que estou querendo dizer é que, no frigir dos ovos, o que sustenta a popularidade de Braide não é apenas a capacidade de fazer obras ou a performance de influenciador digital no Instagram.

Braide se afastou de todas as instituições que, no imaginário popular, não servem mais nos dias de hoje.

Braide não respeita o planejamento orçamentário que a própria prefeitura encaminha para votação na Câmara, ele subverte a execução orçamentária com suplementações que obedecem apenas ao calor do momento. Ele olha as métricas de Instagram e as pesquisas qualitativas sobre o sentimento popular e decide, sem planejamento algum, qual será a obra ou ação a ser priorizada.

Braide não se importa em prestar contas junto à imprensa, não apenas porque sabe que tanto a imprensa tradicional quanto os blogs regionais estão desgastados, mas, sobretudo, porque é muito mais fácil para ele controlar as narrativas em contato direto com a população do que ter que gastar energia respondendo a perguntas inconvenientes.

Braide finge não ter vínculos com políticos tradicionais porque sabe que a população foi capturada por uma mentalidade que nega a política como instrumento de organização da sociedade.

Braide ignora políticas sociais, tendo abandonado saúde, educação, transporte e programas sociais, porque sabe que o bolsonarismo e a disseminação de influenciadores digitais milionários espalharam uma mentalidade coletiva predatória que despreza pessoas e venera coisas.

E, por fim, a genialidade maior: o voucher de aplicativo.

Apesar de ser um benefício pontual e momentâneo, o voucher personifica o maior delírio coletivo do século XXI, o delírio da prosperidade instantânea, já devidamente instalado na mente das pessoas em função da ilusão do enriquecimento rápido, representado pela pandemia de bets e do tigrinho.

Quando o indivíduo é escravizado por um trabalho mal pago e extenuante, dependente, ainda por cima, de um ônibus caro, velho e perigoso para se deslocar, e, num passe de mágica, passa a ter acesso a um carro que o levará de forma rápida, confortável, segura, na porta do seu trabalho ou faculdade, ele revive o sonho da Cinderela. Deixa de ser um ser invisível, humilhado e exausto, para ser uma pessoa digna de uma vida confortável e com acesso a um bem muito desejado na capital maranhense: o veículo.

O prazer de estar em um carro com ar-condicionado, sentado no banco de trás, com um motorista particular e poder sair de casa mais tarde, garante algo muito maior do que a sensação de bem-estar: oferece acesso, oferece diferenciação, oferece dignidade.

E, ainda que momentâneo, o voucher oferece a sensação de prosperidade individual hoje, aqui e agora.

Enquanto isso, “brandonistas” e “camaronistas” seguem com macro-narrativas de que a democracia e o campo progressista vão melhorar a vida das pessoas aos poucos, com estabilidade, políticas públicas, proteção social e algum avanço gradual.

Ninguém quer mais saber disso. A classe média não deu a mínima para a isenção de IR do Lula, que garante alguns trocados a mais na conta. Os pobres não se importam com um vale-gás no fim do mês. O que eles querem é conforto, riqueza e distinção, ainda que ilusória.

E ainda tem a figura do motorista de aplicativo, maior beneficiado com a política de voucher. Esse, que já era um “braidista” engajado por conta das muitas obras de asfalto na cidade, passou a ser o maior e mais apaixonado cabo eleitoral do prefeito. É ele quem espalha, para os moradores do interior que chegam à cidade, as maravilhas da gestão Braide; é ele quem fortalece, no imaginário local, a ideia de que Braide é moderno e diferente de tudo que está aí.

Em um planeta apocalíptico, devastado por crises climáticas, hiperconcentração de renda, inteligências artificiais substituindo seres humanos e guerras digitais e militares imprevisíveis, Braide entendeu que o que importa é a aparência da felicidade momentânea, não a construção gradual da felicidade possível. Afinal, o mundo está acabando!

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