No dia 19 de dezembro, data marcada para a decolagem do foguete sul-coreano HANBIT-Nano a partir da base de Alcântara (MA) — no que seria o primeiro lançamento comercial do Brasil — o prefeito Eduardo Braide (PSD) começou o dia lembrando sua atuação, ainda como deputado federal, para viabilizar a aprovação do Acordo de Salvaguardas Tecnológicas (AST). Firmado em 2019 pelos governos brasileiro e dos Estados Unidos, o acordo abriu a base maranhense ao mercado de lançamentos comerciais.
“Se hoje o Brasil comemora o lançamento do primeiro foguete comercial lançado pelo país, é porque em 2019 aprovamos o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas de Alcântara. Como deputado federal, votei e trabalhei pela aprovação do Acordo que será uma janela de desenvolvimento para Alcântara, o Maranhão e o Brasil!”, escreveu o prefeito de São Luís.
À noite, Braide se deslocou até a base de Alcântara para acompanhar o lançamento. De lá, gravou um vídeo com o senador Marcos Pontes (PL), então ministro da Ciência e Tecnologia à época da assinatura do acordo, reforçando a narrativa de que ambos atuaram juntos para aprovar a medida. Entre os dias 19 e 22 — quando o foguete foi finalmente lançado, após sucessivos adiamentos — o prefeito publicou cinco vídeos sobre o assunto.
Embora a missão sul-coreana tenha fracassado, com o foguete explodindo cerca de 50 segundos após a decolagem, a missão-Braide teve êxito.
O prefeito mostrou habilidade ao tomar para si o protagonismo político de um momento que — apesar de envolto em uma disputa territorial que se arrasta há mais de 40 anos — é histórico para o país.
Ainda que não esteja muito claro para a população média qual a serventia prática de um foguete, Braide conseguiu cativar o imaginário dos eleitores ao destacar o potencial econômico das missões espaciais em Alcântara. Com o silêncio do governador Carlos Brandão (sem partido), o prefeito também ocupou o espaço de porta-voz dos interesses maranhenses. Quem acompanhou o episódio pelas redes sociais do prefeito não tem dúvidas de que ele é um dos grandes responsáveis pelo lançamento.
Na noite do dia 22, enquanto os últimos preparativos para o voo eram feitos na base de Alcântara, Brandão recebia uma comitiva de atletas mirins de karatê na residência oficial do governo em Imperatriz — cidade onde inauguraria, no dia seguinte, o Hospital de Alta Complexidade da Região Tocantina.
Não se discute a relevância da agenda para o esporte maranhense, nem se esperava que o governador acompanhasse presencialmente o lançamento de um foguete operado por uma empresa privada, a partir de uma base sob controle da União. Ainda assim, chama a atenção o silêncio absoluto diante de um fato de inegável significado histórico para o estado e para o país.

Em visita ao Centro de Lançamento de Alcântara, em 2024, o próprio Brandão afirmou que o Maranhão perdia “bilhões de dólares” pela não operacionalização da base espacial. Disse, ainda, que era preciso avançar para gerar empregos, atrair empresas e permitir que o estado se beneficiasse economicamente das atividades espaciais.
Na mesma ocasião, o governador prometeu a construção de “um grande IEMA” para capacitar a população local e garantir que as comunidades de Alcântara fossem incluídas nas oportunidades geradas pela expansão da base. “Não adianta a comunidade ficar só vendo o foguete subir. Eles têm que se sentir incluídos no projeto”, afirmou.
Brandão, portanto, demonstrou compreender a importância de missões como a do foguete sul-coreano, que levava dois satélites da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Mesmo assim, silenciou — abrindo espaço para o protagonismo do prefeito de São Luís.
Coube ao secretário Paulo Fernandes (Desenvolvimento Social), em publicação que destacou inicialmente o protagonismo do irmão, o deputado federal Pedro Lucas Fernandes (União Brasil), a única manifestação do governo estadual sobre o episódio.
No fim, o lançamento de Alcântara funcionou como um ensaio de liderança estadual de Eduardo Braide. O prefeito falou como quem articula para chegar ao Palácio dos Leões – embora ainda não admita isso.
