O prefeito Eduardo Braide (PSD) foi obrigado a interromper a programação de suas redes sociais na noite desta sexta-feira (14) para dar uma resposta à população sobre a paralisação dos rodoviários da empresa de ônibus 1001, que afetou 15 bairros da capital, deixou centenas de usuários sem transporte e dificultou a vida de estudantes às vésperas do segundo dia de provas do Enem.
A paralisação começou ainda nas primeiras horas da manhã, mas Braide achou prudente esperar até ter algo a dizer. Já eram 23h quando o prefeito apareceu para admitir – ainda que lateralmente – que não tinha conseguido resolver o impasse. Sem ter uma solução prática para o problema em si, Braide jogou a culpa nos empresários que controlam o setor e anunciou um plano B: pagar as corridas de estudantes que farão a prova do Enem no domingo (o benefício, porém, é restrito a quem possui carteira estudantil, donde subentende-se que os demais concorrentes terão de se virar para não perder a prova).
A intenção é demonstrar que a prefeitura tem feito tudo para garantir o direito da população e que a nova paralisação é responsabilidade de empresários gananciosos que não cumprem suas obrigações. Mesmo que se tome essa premissa como verdadeira, a paralisação dos rodoviários da 1001 – que estão sem salário, sem plano de saúde e sem tíquete-alimentação – também é responsabilidade da prefeitura de São Luís.
Foi a prefeitura que escolheu não abrir uma nova licitação para renovar o consórcio de empresas que opera o setor, mesmo estando autorizada para isso desde o início do ano pela Câmara Municipal.
A inoperância do sistema de transporte público da capital não é um problema novo. Desde que assumiu a prefeitura, em 2021, Eduardo Braide já teve de lidar com cinco greves de rodoviários – uma para cada ano de mandato. A mais recente, em fevereiro deste ano, foi particularmente problemática para o prefeito. Dono de uma popularidade que beira os 80%, segundo pesquisa do AtlasIntel, Braide recebeu uma enxurrada de críticas e resolveu agir.
No dia 17 de fevereiro, com a cidade paralisada por falta de ônibus nas ruas, o prefeito anunciou que encaminharia à Câmara um projeto de lei autorizando uma nova licitação do transporte público. “Vamos fazer com que São Luís nunca mais seja refém dos empresários de ônibus”, prometeu Braide.
O projeto foi aprovado de imediato pelos vereadores e, dias depois, o prefeito gravou um vídeo na Procuradoria-Geral de Justiça para comunicar que o Ministério Público fiscalizaria todo o processo da nova licitação.
Em março, Braide nomeou o secretário de cultura Maurício Itapary para o comando da SMTT (Secretaria Municipal de Trânsito e Transporte), afirmando que ele teria a responsabilidade de conduzir a nova licitação. Em abril, fontes do MP-MA revelaram ao Observador que a prefeitura ainda não havia compartilhado nenhuma informação sobre o andamento do processo licitatório.
É possível que, com os ônibus de volta às ruas e os preparativos para o carnaval batendo à porta, Braide tenha decidido deixar para descascar esse abacaxi depois – subestimando, talvez, a incapacidade de alguns empresários de honrar os pagamentos dos trabalhadores rodoviários, apesar dos subsídios milionários que recebem da prefeitura.
Em todo caso, o prefeito sabia que teria de preparar uma licitação, com padrões mais rígidos, se não quisesse lidar com outra crise no sistema de transporte. Se não o fez — e tudo indica que não tenha feito —, Braide negligenciou o risco de novas paralisações, como a deflagrada agora por rodoviários da empresa 1001 (que pode ser estendida para todo o sistema, segundo o sindicato dos rodoviários).
Nove meses depois de anunciar, com ênfase, que a cidade não seria mais refém das atuais empresas de ônibus, a gestão Eduardo Braide não avançou nos preparativos da nova licitação. Se tivesse avançado, considerando o perfil midiático do prefeito, isso teria sido anunciado logo após a paralisação dos rodoviários da 1001 na última sexta-feira.
Se trocar a gerência problemática do sistema de transporte da capital não é uma prioridade para o prefeito Eduardo Braide, não dá para dizer que ele é refém das empresas de ônibus. Não existe, como se sabe, cárcere autoinfligido.
