Ninguém mais nega, na Assembleia Legislativa do Maranhão (Alema), que a população de São Luís viveu momentos de terror nas últimas semanas, depois que facções criminosas iniciaram uma violenta disputa por territórios que terminou com o sangrento saldo de nove mortes, dez feridos e ao menos 13 bairros atingidos. O embate entre parlamentares da base governista e os da oposição agora é para saber se foi mesmo para tanto.
ALARMISMO Num primeiro momento, deputados governistas apostaram na tese de que o pânico instalado na cidade não era fruto de uma crise na segurança pública, como assegurava a oposição, mas de alarmismo. Da tribuna, o deputado Ricardo Arruda (MDB) repercutiu o relato do proprietário de uma pizzaria da capital que não pôde abrir as portas porque todos os seus funcionários ficaram com medo de sair de casa. “A economia, de um modo geral, da cidade de São Luís sofreu por conta dessa onda de alarmismo. Eu não vou entrar no mérito sobre a origem, mas eu tenho certeza, e trago aqui informações concretas para confirmar, que [isso] não corresponde à realidade da segurança pública de São Luís e do estado do Maranhão.”
NÃO É BEM ASSIM Na sessão da última quinta-feira (30), no entanto, o tom mudou. Líder do governo na Alema, o deputado Neto Evangelista (União Brasil) afirmou que não iria “tapar o sol com a peneira”. “Segurança pública, hoje, é um problema nacional. Tem em todos os estados e tem no Maranhão. Se disser que não tem, nós estamos começando errado”, opinou. Mas o caso de São Luís, na leitura do parlamentar, foi pontual e restrito a algumas comunidades. “Nos últimos dez dias, a briga entre facções em São Luís aumentou, o sistema chegou atuando em cima desse confronto que existe dentro de algumas comunidades, mas nós tivemos verdadeiramente, por parte inclusive da oposição, um toque de terror. Isso aqui não ajuda.”
FAKE NEWS Neto Evangelista relatou que, em reunião com a cúpula de segurança no Palácio dos Leões, representantes do Tribunal de Justiça fizeram um apelo para que os parlamentares combatessem as fake news sobre o assunto. “Eu vi, no instagram de homens públicos, vídeos antigos de tiros acontecendo na avenida Daniel de La Touche. Isso beira a irresponsabilidade. Criou-se um tal terror entre as famílias que eu cheguei a pensar que estava vivendo em 2011, na greve da Polícia Militar, ou em 2014, durante as decapitações de detentos que ocorreram no nosso sistema prisional.”
ALERTA “O alerta que eu faço é que o problema de segurança, que se vive no Brasil inteiro, não se combate com fake news. Estava-se tendo [uma] briga de facções, em locais pontuais, e tocaram o terror na cidade inteira. Existe o problema, e ele tem que ser combatido, mas não dessa forma”, disse.
ENCAMINHAMENTO O líder do governo também citou os encaminhamentos do Executivo estadual para ampliar o combate ao crime organizado, destacando a criação de um programa de recuperação de ativos para investimento no sistema de segurança – proposto pelo deputado de oposição Carlos Lula (PSB) – e o reforço das polícias militar e civil, com a nomeação de aprovados em concursos da PM e de 34 novos delegados. Neto Evangelista também informou que o governo pretende realocar ainda mais recursos para investimento na área de inteligência do sistema de segurança pública na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026, que deve ser votada até dezembro. “Assim se combate o crime organizado. Tocando o terror não se combate”, concluiu Evangelista.
OPOSIÇÃO Deputados de oposição, por sua vez, defendem que o clima de terror na cidade não foi causado por fake news, mas por um problema concreto e pelo que caracterizam como omissão do governo. “Não tem fake news, não tem clima de terror. Não são quatro ou cinco deputados de oposição que vão criar clima de terror na cidade pelas redes sociais. Vossa excelência, muito confortável na sua casa, não estava lá onde tinha bala comendo. É desrespeitoso com a sociedade querer tratar o tema dessa forma. Se a sociedade tem medo, se a sociedade entra em pânico, é porque, de fato, há algo grave”, garantiu o deputado Carlos Lula.
PROPOSIÇÃO O deputado lembrou que foi o único a apresentar uma proposição concreta para combater o problema da segurança pública. “Fui o único que apresentou [na Alema] concretamente uma solução, criando o sistema estadual de recuperação de ativos, projeto que eu espero que não seja bloqueado pelo governo. O projeto está aí e é medida que resolve. Não é querendo dizer como a oposição deve se portar que a gente vai resolver o problema de segurança”, disse Carlos Lula. “Lamento muito, porque isso é o apagar de um governo desastroso para o estado, apontar que a crise é pautada pelo discurso de deputados de oposição. Eu esperava pouco desse governo, mas me parece que ele chegou, de fato, no pré-sal.”
