A Polícia Federal prendeu em flagrante, na manhã de sexta-feira (17), três pessoas suspeitas de envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro a partir de emendas parlamentares estaduais destinadas a entidades culturais no Maranhão.
Foram detidos Maria José de Lima Soares, de 57 anos, presidente do Boi de Maracanã e representante da Banzeiro Grande Produções Ltda; Ivan Jorge da Piedade Madeira, de 53 anos, presidente da Companhia de Cultura Popular Catarina Mina; e Larissa Rezende Santos, de 38 anos, assessora da deputada estadual Andreia Rezende (PSB).
Segundo a Polícia Federal, os três foram abordados em uma agência do Banco do Brasil, no Centro de São Luís, logo após realizarem saques que totalizaram R$ 400 mil em espécie. O valor, segundo as investigações, deveria ser destinado à execução de projetos sociais por meio das entidades culturais, mas há indícios de que seria desviado para outras finalidades.
Origem dos recursos e suspeitas da PF

A apuração aponta que os valores têm origem em emendas parlamentares estaduais repassadas a instituições culturais contratadas para realizar eventos que não ocorreram. De acordo com a PF, o montante total sob investigação ultrapassa R$ 2 milhões.
Em depoimento, Larissa Rezende declarou que o dinheiro seria entregue à deputada estadual Helena Duailibe (PP) e que teria como destino a realização de uma festa natalina. A deputada, em nota, afirmou não conhecer os envolvidos e negou qualquer relação com os fatos investigados.
A PF informou ainda que o valor apreendido seria originalmente destinado à Companhia de Cultura Popular Catarina Mina para um evento alusivo ao Dia das Crianças, em 12 de outubro, que não foi realizado. No auto de prisão em flagrante, a corporação afirmou haver “fartos elementos informativos indicando que o valor apreendido é proveniente dos crimes de peculato e corrupção passiva”, com possível repartição indevida entre os detidos e outras pessoas ainda não identificadas.
Os três foram conduzidos à Superintendência Regional da Polícia Federal no Maranhão, onde foram autuados em flagrante pelo crime de lavagem de dinheiro, previsto no artigo 1º da Lei nº 9.613/1998.
Liberdade provisória
No sábado (18), os três presos foram apresentados à audiência de custódia no Plantão Criminal de 1º Grau de São Luís. O juiz Luís Carlos Dutra concedeu liberdade provisória aos investigados, que deverão responder ao processo em liberdade.
Com a decisão, foram soltos Maria José de Lima Soares, Larissa Rezende Santos e Ivan Jorge da Piedade Madeira, todos presos no dia anterior durante a operação da Polícia Federal. A Justiça não divulgou o teor completo do despacho, e o Tribunal de Justiça do Maranhão informou apenas que a decisão foi tomada após a análise do auto de prisão em flagrante.
A Polícia Federal reiterou que o inquérito segue em andamento, com o objetivo de identificar outros envolvidos e rastrear o destino dos valores desviados.
Segundo a PF o esquema teria funcionado com a indicação de emendas parlamentares e a celebração de convênios com entidades culturais. Após os repasses, os valores eram sacados integralmente em espécie, de forma fracionada e sem comprovação das atividades culturais.
A corporação investiga se parte dos recursos desviados pode ter sido usada em financiamento irregular de campanhas eleitorais.
A pena para o crime de lavagem de dinheiro pode chegar a dez anos de reclusão.
O que dizem os citados
Ivan Jorge da Piedade Madeira
A defesa informou que ainda toma conhecimento dos fatos para poder se manifestar. Disse que Ivan Madeira é um dos mais antigos fazedores de cultura do Maranhão, com quase três décadas à frente da Companhia Catarina Mina, atuando no Tambor de Crioula e em projetos sociais nas comunidades da Praia Grande, Portinho e Desterro.
Larissa Rezende Santos
A defesa afirmou que os fatos alegados serão esclarecidos no âmbito da investigação policial e que conclusões precipitadas são especulativas e podem causar danos irreparáveis. Em nota, destacou que Larissa é ré primária, possui emprego lícito e sempre atuou de forma ética e respeitosa à legislação. Disse ainda que a assessora colaborará com a Justiça “para contribuir na elucidação dos fatos e demonstrar a verdade”.
Maria José de Lima Soares
A defesa declarou que Maria José sempre trabalhou com emendas parlamentares e prestou contas de todos os eventos sob sua responsabilidade, mantendo viva a tradição do Bumba Meu Boi de Maracanã.
Em nota, afirmou que as acusações são descabidas e que a presidente da entidade é “uma agitadora cultural respeitada”, com histórico de atuação social reconhecida. Disse confiar na Justiça para esclarecer o caso e provar a legalidade de suas ações.
Deputada Helena Duailibe (PP)
A parlamentar informou que foi surpreendida com o episódio, que não conhece os envolvidos e que ainda aguarda acesso ao inquérito. “Nunca recebi ou receberei, em nenhuma hipótese, valores indevidos de quaisquer naturezas”, declarou em nota.
Deputada Andreia Rezende (PSB)
Procurada, a deputada Andreia Rezende não havia se manifestado até o fechamento desta reportagem.
Assembleia Legislativa do Maranhão (ALEMA)
A Alema informou que, até o momento, não recebeu comunicação oficial sobre o caso. Disse que, assim que houver notificação formal, prestará todas as informações necessárias e colaborará com as autoridades, “com total transparência e responsabilidade institucional”.
